2 de Dezembro de 2020 | Coimbra
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ORLANDO FERNANDES

Pontos de vista: Em tempos de crise

26 de Junho 2020

Em tempos de crise somos todos comunistas ou socialistas. Esta é uma lição económica ou política que podemos retirar das crises excecionais como a que vivemos.

Tenho alguma antipatia pessoal por extremos ideológicos, já que a realidade tem esta caraterística de dificilmente se encaixar em modelos excessivamente dogmáticos ou simplistas – que são terrivelmente óbvios numa perspetiva comunista ou ultraliberal.

O mais fervoroso liberal clama hoje pela intervenção estatal, quer seja sob a forma de um apoio de lay-off, quer seja sob um novo programa de incentivos ou empréstimos, quer seja ainda sob a forma de subsídios que permitam às empresas não afundar.

Não há absolutamente nada de errado nisto, já que uma crise económica exige uma intervenção estatal com fins normativos, porque acreditamos que o desemprego é errado, mas também, com fins positivos, já que a solução ótima para uma crise deste género requer, de facto, uma intervenção do Estado (sem políticas monetárias europeias, expansionistas e políticas orçamentais expansionistas, a crise seria mais grave e mais perene).

Errado é considerar que o papel do Estado deve ser mínimo (e criticá-lo), sem ver a contradição intelectual de, agora, pedir intervenção estatal.

De facto, os mercados não são perfeitos, exigem atribuição de direitos de propriedade, têm externalidades (negativas, como a poluição, ou positiva, como a criação de conhecimento ou educação), tendem para monopólios e, raramente, existe verdadeira concorrência (que seria fundamental para o sucesso de um modelo liberal).

Todas estas questões exigem um Estado regulador (assegura concorrência), um Estado que protege os recursos (porque os custos privados não incluem os custos sociais atuais e futuros), um Estado que fomente a educação/conhecimento e que faça escolhas para corrigir a direção económica.

Numa perspetiva liberal, as empresas (e bancos) que falham não se souberam reinventar, não têm reservas, estão alavancadas e devem, pois, fechar.

Mas a sociedade moderna insiste em privatizar ganhos e socializar perdas, em pedir menos ou mais Estado quando é útil para o acionista. Errado é também considerar o outro extremo, que o papel do Estado deve ser máximo, já que o Estado não é, nem pode ser, o fornecedor mais eficiente dentro da economia.

Curiosamente, olhando para os EUA, o liberalismo moderno é apenas uma forma de corporativismo, que coloca o Estado ao serviço de vencedores previamente escolhidos, que promove ineficiência e cuja única forma de desregulação que apregoa é a ambiental e financeira.

Talvez este momento fosse o ideal para reavaliar modelos económicos e da sociedade, mas pelo que vemos à nossa volta parecemos despenhar no sentido errado.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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