21 de Outubro de 2021 | Coimbra
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ORLANDO FERNANDES

Pontos de Vista: A crise pandémica

26 de Fevereiro 2021

Não é uma simples figura de estilo dizer-se que Portugal conseguiu fazer sempre boas presidências da União Europeia. Já havia três no currículo. Iniciou agora a quarta. Há razões que explicam os êxitos anteriores. A diplomacia portuguesa pode não ser grande em número, mas é experiente e, de um modo geral, tem elevada qualidade.

Ao longo das décadas da nossa integração, nunca houve estados de alma dignos de nota sobre a opção europeia e transatlântica da nossa inserção internacional, perdido o império e ganha a democracia. Somos um país aberto ao mundo, habituado a olhar para fora e a relacionar-se com os outros. Não temos problemas específicos de relacionamento com os nossos parceiros europeus, herdados da história ou da geografia.

As relações ibéricas foram resolvidas precisamente graças à simultaneidade da transição democrática e da integração europeia nos dois países. Finalmente, perdurou sempre um sólido consenso interno sobre a Europa, assente nos dois grandes partidos de Governo. Além disso, citando Eduardo Lourenço, a generalidade dos portugueses continua a sentir-se bem na sua nova qualidade de “verdadeiros europeus, dessa Europa sonhada que estava além dos Pirenéus”.

As duas últimas presidências – de 2000 e 2007 – marcaram de forma indelével a história da Europa dos últimos 20 anos. Na primeira, sob a liderança de António Guterres, foi aprovada a Estratégia de Lisboa – a resposta europeia à era da Internet e da globalização. Foi uma revolução na forma como a Europa olhava para a sua economia no contexto internacional.

Em 2007, numa perfeita articulação com a presidência alemã e com o apoio do presidente da Comissão, Durão Barroso, o Governo de José Sócrates conclui as negociações do Tratado da União Europeia, um passo enorme no processo de integração. Mais una vez, Portugal revelava-se um exímio negociador dos compromissos fundamentais para colocar a Europa a par do seu tempo.

Depois dos anos pesados da troika, Portugal recuperou a sua credibilidade europeia e tem à frente do Governo um político prestigiado e escutado em Bruxelas e nas capitais que mais contam. Regressa à presidência rotativa quando a Europa está mergulhada na sua pior crise de sempre, provocada por uma pandemia devastadora que a põe mais uma vez à prova.

O Tratado de Lisboa retirou protagonismo às presidências, rotativas ao criar os cargos do Conselho Europeu e de alto representante para a Política Externa de Segurança. A própria agenda europeia é de tal modo vasta que a margem de manobra de um país para deixar a sua marca é hoje mais reduzida.

Há, no entanto, uma diferença abissal. O mundo mudou para lá de qualquer reconhecimento e essa mudança reflete-se na realidade europeia, nos seus problemas internos, nos seus principais desafios.

De modelo de integração regional exemplar para o resto do mundo, a Europa avança hoje a contracorrente, quando a ordem internacional caminha para a desagregação e para o caos. De exemplo mais avançado do multilateralismo, a Europa defende-se hoje contra o regresso de uma ordem internacional em que regra dá lugar à força.

De poderoso pólo de atração estabilizador e democratizador da sua vizinhança, a Europa está hoje rodeada de instabilidade e de conflitos por todos os lados, e os seus princípios democráticos (a sua maior força) veem-se postos em causa no seu próprio seio. De terra de acolhimento de deserdados e de refugiados, fecha-se sobre si própria, ferida pelos movimentos identitários, populistas e nacionalistas que veem nos outros ameaça à sua identidade cristã e étnica, como ao seu estatuto social e aos seus empregos.

A leste, a Rússia passou a ser de novo uma ameaça à sua segurança. Com a chegada de Xi Jinping ao topo do regime comunista, a China passou do tranquilizador “peaceful rising” para uma indisfarçada e cada vez mais agressiva ambição de hegemonia mundial. A União assiste pela primeira vez na sua história à primeira deserção. A saída do Reino Unido não aumentou a sua coesão interna, como alguns teimam em dizer.

Acelera as suas divisões e aumenta os seus desequilíbrios. Finalmente, se Donald Trump teve um mérito foi colocá-la diante de um espelho que lhe revelou as próprias fraquezas para enfrentar esse mundo que lhe é adverso.

Até agora, a crise pandémica funcionou no essencial como um fator de unidade. A Europa conseguiu reagir com determinação às duas brutais consequências económicas e sociais, tomando medidas que, há menos de um ano, eram consideradas impensáveis.


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