27 de Outubro de 2021 | Coimbra
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Páscoa com isolamento torna-se mais solidária

9 de Abril 2020

Parece uma contradição, mas a situação de isolamento causada pelas restrições devido ao Coronavírus (Covid-19) acaba por tornar esta Páscoa mais sentida, com a separação a tornar-se um traço de união.

Já com as ruas de Coimbra desertas desde há umas semanas, à semelhança de outras cidades, vilas e aldeias, a época pascal deste ano ainda veio retirar mais circulação, com a restrição imposta na mobilidade das pessoas, impedindo-as de durante quatro dias não saírem do concelho da sua residência (de amanhã, dia 09, até segunda feira, dia 13), a ter o seu quê de singularidade que terá surpreendido a maioria das pessoas.

Mas não faria sentido que, por razões importantes mas menos prioritárias, se pusesse em causa um relativo controlo sobre uma epidemia que se tem revelado de uma agressividade que a todos preocupou, a muitos assustou e a alguns levou. Daí a necessária solidariedade para ficar em casa, a pensar nos que estão longe, mas protegendo-os de eventuais contágios.

Esta calamidade social pôs a claro a extraordinária capacidade e generosidade de alguns grupos profissionais e sociais. Se é certo que a sociedade não pára de inventar e reinventar esquemas de auxílio social, nada chega à dimensão – verdadeiramente heróica – como os profissionais de saúde se entregaram ao combate desta doença, não regateando nem tempo nem esforços para salvar vidas, uma das mais nobres funções do homem – todos, aqui e ali. No hospital grande e no pequeno, seja onde for, os profissionais de saúde de Portugal (noutros países também) têm vindo a escrever uma das mais lindas histórias da dignidade profissional, quando a morte ronda por perto. Morte que levou alguns deles. Sem materiais suficientes, em condições muitas vezes precárias, mesmo assim dão a cara e o seu saber, expondo a sua própria vida para salvar seres que nem sabem quem são. Devemos-lhes, aos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares, todos – o maior obrigado deste século.

Tem sido diferente o nosso viver coletivo, em Coimbra, em Portugal, na Europa e no mundo. A par disso, a economia, a produção de bens, o trabalho, a segurança do emprego, tudo isso se tem vindo a desmoronar, deixando no ar a pergunta que não nos sai da cabeça: “e agora?”. As empresas fecharam muitas, outras têm-se mantido aos bochechos, as vendas desapareceram, as cobranças também, a tesouraria das unidades económicas veio a zero. Bem tem tentado o Governo disponibilizar apoios diversos e um deles, o lay-off, tem sido muito solicitado. Veremos as suas virtualidades daqui a dois/três meses. Mas o que seria necessário – resta saber se possível – era injetar dinheiro vivo nas empresas a troco da manutenção dos postos de trabalho, sob pena do Estado não acudir em tempo útil e daqui a pouco tempo estar a gastar em subsídios de desemprego o que não investe agora na continuidade das empresas.

Câmaras e Juntas incansáveis

As Juntas de Freguesia e as Câmaras Municipais têm sido verdadeiramente notáveis na resposta possível a esta situação de calamidade. No acudir aos mais expostos, mais carenciados, mais sozinhos, esta primeira linha da organização político-administrativa do país, que são as autarquias, tem sido igualmente notável de dedicação, entrega e sentido cívico. Integram de igual modo o nosso património de orgulho nacional.

Muitos mais setores têm dado o mais e o melhor de si: agentes de segurança, bombeiros, trabalhadores diversos no desempenho das mais variadas funções das quais o viver coletivo não pode prescindir.

Ao nível das autarquias, todas sem exceção e mediante as suas possibilidades, os apoios têm sido em várias áreas, desde a redução das faturas da água, passando pela disponibilização de centros de acolhimento, prosseguindo com linhas de apoio social e entrega de bens a pessoas idosas e isoladas, entre muitas outras ações.

Para o concelho de Coimbra, a Câmara apresentou um pacote de 22 medidas de emergência destinadas a várias áreas: social e famílias, atividade económica e empresas, e cultura e desporto.

Entre as medidas contam-se a suspensão, até 30 de junho, do pagamento das rendas habitacionais municipais, o fornecimento de refeições escolares (almoço e lanche), em regime de ‘take-away’, a todas as crianças do ensino pré-escolar e do 1.º ciclo, ou a disponibilização, em articulação com a Administração Regional de Saúde do Centro, de alojamento em unidades hoteleiras da cidade para os profissionais de saúde e proteção civil, bem como a funcionários dos lares residenciais.

No caso da área destinada às atividades económicas e empresas, as medidas são a isenção do pagamento de taxas de ocupação relativamente aos meses de abril, maio e junho, aplicáveis aos pequenos comerciantes e produtores locais do Mercado D. Pedro V, mas, também, a suspensão de cobrança das rendas relativas a abril, maio e junho, aos pequenos estabelecimentos comerciais instalados em edifícios municipais, que se encontrem arrendados ou concessionados, e que estão encerrados devido ao estado de emergência, assim como a isenção do pagamento das taxas relativas a abril, maio e junho, pela ocupação do espaço público e da publicidade nos estabelecimentos comerciais.

Na área da cultura e do desporto, a autarquia pretende fazer um adiantamento de 25 por cento do valor médio dos subsídios concedidos pela Câmara Municipal à atividade corrente/permanente nos últimos cinco anos, como apoio às entidades desportivas e culturais do concelho, entre outras medidas.

CURIOSIDADES

Choupal fechado

O Choupal é um refúgio natural de Coimbra mas nos últimos tempos não tem sido muito generoso para com a população que dele tanto gosta e frequenta. Primeiro, com o Leslie, aquele temporal de má memória, esteve fechado meses seguidos. Agora, ao fim da primeira semana de isolamento forçado era visto por parte da população como a praça onde se iria descarregar a tensão acumulada. Foi um, foram dois, foram às dezenas, centenas e às tantas as autoridades mandaram as pessoas para casa. Não é que fossem assim tantas, mas algumas centenas seguramente. Só que se começaram a formar grupos, os cuidados foram diminuindo e o presidente Manuel Machado apercebeu-se (ou alguém lhe disse) e ele pediu à polícia (é o responsável pela proteção civil local) que esvaziasse o Choupal. No final de semana seguinte já não facilitou. Em conjunto com o Diretor responsável do ICNF (Instituto Conservação Natureza e Florestas) mandou fechar a mata a sete chaves, colocando avisos a proibir o acesso à mata, colocando fitas sinalizadoras, criminalizando eventuais desobediências. E o Choupal encerrou e assim se tem mantido, com pesar de muitos dos seus frequentadores.

Autoridade com eficácia e elegância

Podem ter existido situações de algum desagrado, não sabemos. Mas pelo que nos apercebemos as diversas forças de autoridade da cidade de Coimbra e pela região têm estado muito bem, perfeitamente à altura do que delas se espera, aliando a eficácia do seu trabalho à correção na abordagem às pessoas menos dadas a alterar rotinas e comportamentos.

Debaixo da Bata há um coração a bater

No desempenho das nossas funções tivemos ocasião de lidar com vários profissionais de saúde. Vimos alguns a chorar. Esgotados, sem muitos dos meios necessários, sem materiais de proteção suficientes, a sentir que não conseguiam salvar este ou aquele doente, as forças baixaram em alguns casos. Debaixo daquelas batas há um peito que tem o coração por inquilino.

O take away tem dado um jeitão

Com os restaurantes e cafés fechados, muitos deles viraram-se para o “leva para casa”, uns que já tinham esse serviço, outros que a ele se adaptaram. Deu um jeitão à cidade esta modalidade. À cidade e ao país. Cada vez se tem visto mais gente a ir buscar comida e assim se mantém uma atividade que tem garantido uma certa tranquilidade. Mas aquela ideia da Churrasqueira da Várzea, partilhada pelo Café Mónaco, pelos supermercados Pérola, foi brilhante: 200 almoços num dia, 200 jantares noutro dia. Duas vezes por semana, portanto, num total de 400 refeições. Levadas à porta do Mónaco onde as pessoas passavam e levavam uma boa refeição quente. O melhor da ementa: a nobreza do gesto.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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