16 de Setembro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

Os jardins do Zé Ramalho

31 de Maio 2019

A velha Baixa tem tantas coisas interessantes para oferecer a quem a saiba olhar com olhos de ver e orelhas para ouvir que não resistimos a este apelo! A essa atitude, porém, há que juntar a alma. É que, cada soleira de entrada, cada cachorro das esquinas, cada número esbatido de uma velha cantaria, cada beiral pejado de ervas que pendem dos beirais, cada porta entaipada, cada espaço de uma qualquer taberna de ontem ou de hoje, cada tabique das casas em ruínas onde ainda são visíveis as múltiplas cores com que então eram pintadas as divisões interiores, todas essas memórias dizem da vida que ali foi! E, depois, ainda por ali vive gente desse antigamente, homens e mulheres que contam como era e desejam manter elos e afetos de um passado não tão distante.

Uma dessas pessoas é o Zé Ramalho, nascido na Alta mas por aqui radicado vai para sessenta anos e especificamente no Beco do Castilho há mais de vinte. É um homem agradável e desembaraçado, que sabe de tudo um pouco, sempre disponível para dar uma mão a quem precisa dos seus trabalhos e, por isso, com serviços prestados a instituições como a APPACDM, Juntas de Freguesia e Câmara quer na limpeza de matas e terrenos quer na jardinagem, a sua verdadeira paixão.

E de tal modo se manifesta esta sua apetência para lidar com as plantas e as flores que o dito beco está transformado num inesperado jardim, onde tudo quanto é recipiente está ali adaptado a vaso: são tachos e latas velhas, bidés, sanitas e lavatórios, garrafões, baldes e penicos, caçarolas, alguidares, púcaros, cafeteiras… cada um transformado em canteiro individualizado com sardinheiras, catos, alegrias do lar, begónias, costelas de Adão, arruda, salsa, malvas, alecrins, roseiras, loureiros, nespereiras, azinheiras, jarros, lírios, canas da Índia, azevinhos, fetos…, de tudo um pouco ali se encontra naquele espaço cuidado por um homem que no dizer do seu vizinho barbeiro desde sempre o viu a falar com as suas plantas e flores quando em todos os momentos livres delas está a cuidar! E nem sequer ali falta a água, neste caso da chuva, que precisa para as regar, pois soube adaptar a sua captação a um tubo roto de uma caleira que vai armazenando em recipientes maiores!

Estes jardins individualizados, porque de pequenos canteiros se trata, estão ali, na Baixa, à vista de quem passa, e fazem parte da vida do Zé Ramalho e da sua identidade ou não seja ele o homem que fala com a natureza!


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