23 de Setembro de 2021 | Coimbra
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LUCINDA FERREIRA

Nus e frágeis

24 de Janeiro 2020

Cansam-me e aborrecem-me os grandes parques comerciais com muitas lojas. Um grande centro comercial ainda é pior, pois há muito barulho, confusão e muita gente.

Um centro, que visitei em Hong Kong, era razoável pela sua largueza, decoração, música de qualidade que andava no ar, executada por artistas exímios que prendiam e encantavam.

Hoje, porém, na confusão do costume, um bebé reclamava alto e bom som. Olhei para o lado. Vi uma criancinha que mais parecia um recém-nascido. A avó olhando para tudo, menos para o bebé, empurrava o carrinho.

Iniciei conversa com ela e disse, sorrindo:

– Ela está a reclamar do barulho. Do frio e do calor. Depois do conforto e proteção dentro do ventre da mãe, de repente vê-se nestas andanças…

Até aos seis meses, o pediatra americano, Benjamim Spock, meu guia aquando dos meus filhos, recomendava que o bebé, até aos seis meses, apenas devia deixar a tranquilidade do lar para visitar o Pediatra!

Frequentar ambientes poluídos, agressivos a todos os níveis (temperaturas, barulhos, luzes, confusão), comprometiam o equilíbrio e saúde da criança!

-Oh! Isso era noutros tempos. Agora é tudo diferente, dizia a avó absolutamente inconsciente e contente. Até sorria, indiferente, concordante como o choro da neta e o ambiente circundante.

– Talvez seja por isso que há tantos desequilíbrios nos jovens, minha amiga, disse-lhe, com leveza.

Hoje, não lhes dão a atenção que merecem e necessitam, e levam os bebés para as creches, para não terem trabalho em casa, mesmo mães que não laboram fora do lar.

Depois, quando crescem, esses mesmos seres levam os pais velhinhos, aos lares. Nunca mais lá voltam.

Talvez inconscientemente seja a vingança e do mesmo abandono…

E lá me despedi, com pena daquele inocente bebé e fui pensando.

Nós, na matéria, não possuímos absolutamente nada! Estamos dependentes de tudo e de todos. Não temos família. Os pais são apenas companheiros de jornada que desceram para aprender a partilhar.

Não temos amigos. Os amigos não se cruzam por acaso. Recebem e dão. Trocam experiências ao longo da caminhada, mas há muito poucos, pois quem ama é generoso e poucos conhecem a generosidade…

Não temos filhos.

Não temos ninguém.

Todos somos almas que se cruzam, apenas de passagem. E…Curta… Ninguém é de ninguém!

A fragilidade é tão grande que ninguém tem poder para dar vida a outrem, quando o tempo se esgota e é chamado para outra dimensão.

Portanto, cada um de nós não é mesmo de ninguém. Nem ninguém é nosso. Nunca! Nunca!Nunca!

Mas não só as pessoas, como os objetos, as coisas, as situações. Nada é de ninguém! De repente tudo se pode perder. Tudo!!

Ora pense bem. Ter esta consciência acaba por ser tão libertador, que necessariamente tem que mudar tudo, nas nossas vidas.

Apego. Ganância. Ciúmes. Inveja. Vaidade….Por quê e para quê? Sentido da responsabilidade e gratidão, claro! Jamais diga ou pense :”ele não me faz feliz”…

Cobranças, luta pela posse do que quer que seja, é ridículo. Orgulho de ser rico. Ganancioso passa a ser infundado. Mas se assim é, pode-se perguntar: – Então se nada me pertence, o que são estas coisas, estas pessoas, que estão à minha volta?

Tudo isto pertence à vida. Tu servir-te-ás de tudo isso, por bondade, cedência, empréstimo, generosidade e partilha, enquanto vives. Depois, fica cá tudo entregue a… Sabe Deus a quem e para quê.

Delicadeza. Encantamento e alegria e sobretudo extrema gratidão, naturalmente impõem-se por si, pois tudo nos foi concedido. Doado pela vida. Pelo Universo. Pelo Criador!

Então a lição será: Um presente para usufruir, aproveitar com satisfação e apreciando até ao mínimo pormenor, a beleza e a grandeza da oferta, mesmo que seja só uma flor abrindo, mas que nossos olhos conseguem ver, fazê-lo com extremo prazer e gozo, como um poeta sabe sentir e apreciar.

Partilhar o muito ou o pouco, com alegria, é outro segredo e postulado da verdade, agora refletida e aceite. (Quando você compartilha algo, o que sobra multiplica-se e cresce. W. Clement Stone)

E tudo isso, por que razão? Para todos aprendermos a largar. A desapegar, pois nascemos nus, frágeis, sem nada e partimos na mesma condição, frágeis e nus!

O intervalo curto, a passagem foi um empréstimo em todos os campos, com a liberdade de bem se viver, de sermos felizes ou desgraçados, colhendo o que semeamos, em liberdade.

Veja, finalmente, como ao saber que nada possuímos… Que nada nos pertence, leva-nos a mudar de atitude: Sobretudo, a agradecer sempre. Por tudo. Em tudo. E tudo isto aguça o nosso cuidado para não, perdermos tempo com lamurias. Nem maldades para connosco mesmos. Para com os outros e, muito menos, para com TUDO o que nos é oferecido, pelo Criador, Universo, seja qual for o nome que lhe quiser dar… Começando pelo milagre da vida!

Usufrua e seja feliz. Grato e livre de apego, cobiça e sem complicações, mas viva em paz e alegria, contribuindo ainda para a subida de vibração deste Planeta Terra tão pouco respeitado, devido ao orgulho e posse invejosa e exagerada e até desonesta, de bens supérfluos, que afinal pertencem a toda a Humanidade, não é mesmo?


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