18 de Abril de 2024 | Coimbra
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JOÃO PINHO

Nota de Rodapé: Quem acode às urgências dos HUC?

12 de Julho 2019

Por motivos de saúde recorri às urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) onde passei 12 horas, desde o pôr do sol ao romper do novo dia. Esta experiência, pese embora toda a carga associada a doença aguda, constituiu um privilégio de análise quanto ao funcionamento de um serviço de resposta urgente e emergente que podia e devia ser exemplar.

Contudo, aquilo a que assisti ao longo de uma noite de insónia, leva-me a concluir que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está, efetivamente, moribundo, e que a administração do hospital não coloca o doente em primeiro lugar, padecendo, eventualmente, de alguma síndrome de distração em prol de outros valores – mais altos e inacessíveis ao comum dos mortais.

Recordando. A admissão no secretariado foi rápida e concluiu-se em cinco minutos, a passagem pela triagem demorou 10 minutos e foi-me atribuída a pulseira verde. Dali entrei para a sala de espera dos gabinetes médicos, apinhada de gente, com vários doentes e acompanhantes em pé, sem ventilação e uma irritante televisão que além da péssima qualidade de imagem não tinha som.

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Dois médicos garantiam assistência a uma colossal massa humana de doentes, despachando o serviço numa roda viva entre o gabinete de atendimento e a sala de tratamentos, fazendo ainda serviço administrativo, chamando os utentes e tratando do receituário. Pelas minhas estimativas, aqueles clínicos assistiram cerca de uma centena de pessoas enquanto lá estive, dando o melhor de si, mas com impactos negativos em termos da qualidade do serviço prestado. Na verdade, cheguei a pensar se estaria a sonhar: estava num hospital de referência ou numa tenda de campanha montada no âmbito de catástrofe humanitária?

Fui consultado ao fim de sete horas de espera. Contudo, nem todos tiveram a minha resistência e paciência: com pulseiras verdes ou amarelas, mais de 20 pessoas acabaram por desistir ao longo da noite – se algumas demandaram o privado, outras pura e simplesmente desistiram, vencidas pela inoperacionalidade do serviço e extenuadas pela espera que parecia não ter fim, ficando por avaliar as consequências de tal ato no quadro individual de cada patologia.

A passagem pela sala de raio x mostrou-me pessoal esgotado e a cumprir ciclos exagerados de trabalho ininterrupto, enquanto os resultados das análises ao sangue demoraram mais quatro horas do que o previsto, por avaria no laboratório.

Em face do que presenciei lanço algumas perguntas para os entendidos responderem:

– Por que razão não se coloca em funcionamento mais um gabinete médico aliviando a pressão constante de utentes?

– Não será de equacionar a remodelação das urgências para espaço com outras condições?

– Colocar uma maternidade num hospital sobrecarregado desta forma não será contraproducente?

– É este o SNS que desejam como base das políticas públicas da Saúde?


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