13 de Maio de 2021 | Coimbra
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JOÃO PINHO

Nota de Rodapé: Coimbra não rima com arqueologia

9 de Novembro 2018

Os relevantes serviços praticados pela arqueologia em todo o mundo, dispensam reflexões epistemológicas sobre esta ciência – que estuda as culturas e os modos de vida das diferentes sociedades humanas, do passado e presente, a partir da análise de vestígios materiais.

Quantos milhões de artefactos ou achados de valor histórico foram recolhidos pelos arqueológos à escala planetária, nalguns casos em circunstâncias extremamente difíceis, para assim conseguirmos compreender, de forma sólida, as diversas manifestações da vida humana nas civilizações que nos precederam?

Horas de trabalho em campanhas, escavações ou sondagens, fornecendo um manancial de elementos úteis não só à própria ciência da Arqueologia, mas também a outras áreas do conhecimento como a Antropologia, Sociologia, Paleontologia…

Coimbra não foge à regra. Se não fosse a Arqueologia que Museu Machado do Castro teríamos, ou, então, que Conimbriga se teria desenhado? Quanta informação de base material e imaterial foi reunida ao longo de anos permitindo compreender a evolução da nossa urbe em articulação com uma vasta área de que foi centro irradiador de poder!

Sou do tempo (2002) em que o vereador Mário Nunes estimulou a criação do Gabinete de Arqueologia Arte e História, organismo camarário tutelado pela Cultura, dotado de recursos próprios que lhe conferiam poder de intervenção alargado no âmbito de ações correlacionadas com obras e urbanismo. Um período dourado para Coimbra e sua História, em que se produziram relatórios de excelência sobre as intervenções realizadas e se deram passos decisivos para a compreensão da evolução histórica da cidade e da região – e se publicou, em 2010, uma obra ímpar “Património Edificado Com Interesse Cultural, Concelho de Coimbra”, redescobrindo e classificando os valores culturais.

Hoje é herdeiro desse trabalho imenso o Gabinete para o Centro Histórico, que persiste na linha da disponibilidade para intervir, estudar e produzir conhecimento num território Património da Humanidade. Porém, a realidade anda longe do desejável: diz-se por aí que o campo de ação da arqueologia se reduziu por imposição hierárquica; é evidente que os recursos humanos e materiais no terreno diminuíram; e deduz-se que os poderes contracultura instalados na sombra do poder político passaram a condicionar ações e resultados na lógica jurídica, aplicada ao extremo, de que a liberdade limita.

Coimbra não rima, definitivamente, com Arqueologia. Basta ler, a este propósito, o que tem saído na imprensa no rescaldo de importantes consignações de empreitadas em zonas históricas, com redução dos arqueólogos a meras figuras operacionais, quase decorativas, ou seja; a um funcionalismo dispensável.


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