17 de Abril de 2024 | Coimbra
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“Nós, sobreviventes, nunca mais somos os mesmos”

21 de Outubro 2022

O cancro não significa fim. Margarete Santos, da Lousã, é a prova disso. Aos 39 anos começou a sua luta. Um Linfoma Não-Hodgkin e Cancro do Cólo do Útero. Duas filhas, de três e oito anos. Um divórcio e uma vida recheada de batalhas. Hoje, esta mulher está aqui e afirma que “não pode morrer agora”. Uma verdadeira sobrevivente que, apesar de ter vencido dois cancros, confessa que quem passa por um processo destes, “nunca mais é a mesma pessoa”.

Margarete Santos, residente na Lousã, tem 46 anos e é uma verdadeira força da natureza. Tudo começou em 2014, quando o seu corpo deu sinais de cansaço extremo, ansiedade e arritmias. Com estes sintomas veio a batalha da sua vida, a luta contra um Linfoma Não-Hodgkin.

“No meu íntimo percebi logo que alguma coisa não estava bem. Fui a uma consulta e a minha médica auscultou-me e verificou que o meu pulmão e o coração estavam bloqueados e fui parar à urgência e saí de lá com diagnóstico de suspeita de Linfoma”, contou a lousanense.

E foi assim, em 2015, aos 39 anos, que recebeu uma chamada telefónica a confirmar o Linfoma Não-Hodgkin, “dos piores”.  “Foi no dia em que fazia sete anos que tinha aberto o meu espaço de estética, mas algo bom é que estava em estadio 2”, disse com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

Margarete teve de desistir de tudo. Receber aquele resultado virou a sua vida ao contrário. “Recordo-me de estar a ler o relatório da TAC, de pegar nele e andar pela vila e dar muitos murros no volante, porque eu não podia ter um linfoma, pois tinha de viver e eu que gosto tanto de viver”, contou em tom de tristeza.

Começaram as sessões de quimioterapia. Oito de sete horas seguidas e 25 de radioterapia. Passados 15 dias da primeira sessão, surge a segunda batalha, “a queda do meu cabelo”.

“Quando acordamos de manhã e passamos a mão pelo cabelo e sai um pedaço é difícil, pois eram os meus caracóis, estava a perder algo que adorava em mim. Lembro-me de fazer esse gesto com raiva e perguntar porquê ou de passar o chuveiro na cara e sentir todo o cabelo a cair, é das piores coisas, e ainda hoje vou ao cabeleireiro e faz-me impressão sentir o cabelo a cair e vê-lo no chão”.

Margarete cortou, assim, o cabelo e ao mesmo tempo teve de se desfazer do seu espaço de estética. “Fiquei totalmente careca. Na altura foi o meu ex-marido que me ajudou a tirar os restos de cabelo que tinha”, relembrou.

Quando ficou sem cabelo, afirma que ficou resolvida. “Comecei a colocar uns lenços giros”, contou. Entretanto veio a queda das sobrancelhas e das unhas, mas isso não impediu Margarete de se vestir de felicidade. “Foi muito doloroso, pois ficamos, como costumo dizer, com “cara de lagartixa”, mas não a mostrava, porque me maquilhava. E cheguei a ter só uma pestana e punha rímel na mesma”.

“Eu não tive amor”

Com o Linfoma vem também o divórcio, em 2015, altura em que estava a fazer radioterapia. “Foi algo que me trouxe muita complicação e tive de colocar na balança os bens materiais ou a minha vida com as minhas filhas e optei pela última”, confessou.

Margarete ficou sem nada. Sem o apoio do seu companheiro, numa casa em que nada era dela e com duas filhas, Matilde Serra e Carolina Serra, que na altura tinham três e oito anos. “Fiquei sozinha agarrada às minhas filhas. Nós com cancro precisamos de paz, amor, carinho, é muito importante, e eu não tive isso”, desabafou.

Quando a mãe teve cancro, Matilde tornou-se “adulta”. “Sempre tive uma vida boa, com os meus pais juntos e uma família feliz, mas veio o cancro da minha mãe e caiu tudo e foi difícil porque a doença trouxe a separação dos meus pais”, contou ao afirmar que “com 10 anos já fazia as tarefas de casa, porque tinha de ajudar a minha mãe e isso fez-me crescer rapidamente”.

Agora com 16 anos, a filha mais velha de Margarete sublinha que “o cancro é uma destruição de tudo. É como se fosse um bandido que entra na nossa vida e vai roubando tudo”.

“Tive muito medo que a mãe morresse. Quando a vi sem cabelo fiquei preocupada, mas achei que ficava bem, mas se pudesse falar com um cancro dizia para ir embora, porque eu não gosto dele”, disse a pequena Carolina, atualmente com 10 anos.

Em 2016, Margarete recebe a notícia que venceu o Linfoma, mas também que iria ter de enfrentar mais uma luta, a do Cancro do Colo do Útero. “Aí disse que não ia lutar, porque com o segundo já sabemos para o que vamos, sabemos que temos ali um ano de luta e andei umas semanas em que não sabia onde andava, porque não aceitei”, contou ao mencionar que em abril daquele ano ficou sem o útero, as Trompas de Falópio, gânglios linfáticos e um pouco da bexiga.

Mais tratamentos, mais internamentos. “Além da cirurgia, fiz quatro semanas de braquiterapia e 25 sessões de radioterapia”, acrescentou.

 Ser sobrevivente

“Fisicamente podes estar linda, porque o cabelo começa a crescer e começas a ter um aspeto maravilhoso, mas não voltamos a ser os mesmos”, salientou Margarete.

Mas esta mulher é uma verdadeira guerreira. Com 46 anos passou por dois cancros e um divórcio, mas a luta ainda não acabou. “Há sete anos que ando nesta batalha, pois as dores e descalcificação dos ossos são imensas e neste momento, por exemplo, não consigo trabalhar oito horas seguidas”, esclareceu, ao reforçar que já não tem cancro, “mas tenho muitas impossibilidades na minha vida e isso é muito difícil”.

Laços rosa de amizade

O IPO foi e continua a ser a sua segunda casa. Foi lá que conheceu muitas das suas companheiras e também o local onde teve de se despedir delas. “Perdi todas as minhas amigas que estavam no meu grupo de cancro, muitas delas, mesmo ao meu lado, e sofro muito com isso, porque é muito doloroso quando partem e te pedem para sobreviveres por elas”, confidenciou com os olhos a lacrimejar.

Margarete partilhou a sua batalha e deixou uma mensagem a todas as pessoas que estão a viver esta luta contra o cancro. “Vivam o tratamento com tranquilidade. Sou uma sortuda, porque venci, mas não vivi o cancro com paz, que é fundamental”, exprimiu.

Uma luta com muitos altos e baixos, mas a verdade é que esta mulher está aqui hoje pronta para continuar a fazer algo que ama, viver. “Cheguei a perguntar ao médico quanto tempo tinha, sim, perguntei. As pessoas dizem que sou uma heroína, mas não, eu tenho é a minha força, que são as minhas filhas e as minhas companheiras que partiram, porque eu não posso nem quero morrer agora”, concluiu com um sorriso de esperança.


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