13 de Maio de 2021 | Coimbra
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MEMÓRIA DO ANO 1917

27 de Setembro 2018

Cada ano que passa encerra um ciclo, carregado de História e de Estórias – a memória do Mundo! 1917, ano da fundação de “O Despertar”, não foge à regra e nele se inscreveram uma multiplicidade de acontecimentos.

À escala internacional, a Política, a Economia, ou o Direito foram áreas de eventos muito significativos: A Cruz Vermelha vencia o Prémio Nobel da Paz, os navios mercantes ingleses organizam-se em comboios e, em Angola, funda-se a Companhia de Diamantes.

No campo religioso, Maude Royden torna-se na primeira mulher inglesa a receber um lugar permanente de pregadora numa igreja anglicana.

Nas artes plásticas, surge o termo surrealista, utilizado por G. Apollinaire, ao descrever os cenários e roupagens feitos por Picasso para o bailado Parade. Na literatura, são atribuídos pela primeira vez os prémios Pulitzer nos EUA. No mundo do espetáculo, Charles Chaplin interpreta e realiza os filmes: Charlot na Rua da Paz, Charlot nas Termas, O Emigrante e O Evadido.

Um ano que vê nascer personagens marcantes como John Fitzgerald Kennedy, mas que vê partir o Conde Zeppelin ou o escultor francês François Rodin.

Em Portugal, o esforço de guerra e a conjuntura internacional trouxeram consequências internas gravosas: o racionamento de géneros e a repressão provocam agitação social e sucessivas greves que levam, a 12 de julho à declaração de estado de sítio em Lisboa.

Na esfera político-partidária, evolucionistas dissidentes e antigos monárquicos formam o Partido Centrista Republicano, liderado por Egas Moniz. Ao propôr como solução para os problemas do país, ordem e disciplina social, constituiu um dos alicerces dos partidos de direita e extrema direita que resultaram no fascismo.

Consequência das tensões sociais e politicas, a 05 de dezembro desencadeia-se a revolta sob a chefia de Sidónio Pais, afastando da governação Afonso Costa e Bernardino Machado, instaurando uma ditadura militar e um regime presidencialista.

Por outro lado, vive-se um momento particular da vida religiosa, com as Aparições de Nossa Senhora em Fátima (13 de maio e 13 de outubro). A outro nível, funda-se o Centro Católico Português.

Mas é, também, o ano de movimentações militares: em janeiro, parte para França a 1.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa.

Na literatura, o ano revelar-se-ia muito profícuo: Raul Brandão publica a obra Húmus, Afonso Lopes Vieira lança Ilhas de Bravura. Sob a direção de Almada Negreiros sai a revista modernista Portugal Futurista, que revelou nomes como Pessoa, Sá-Carneiro, Santa-Rita, ou Sousa Cardoso.

No mundo da cinematografia, funda-se, no Porto, a Invicta Film e, no teatro, Vasco Santana inicia, em outubro, a carreira artística.

A renovação de gerações leva, do mundo dos vivos, Manuel de Arriaga, o primeiro presidente constitucional da República Portuguesa (1911-1915), mas também vultos da cultura como António Feijó.

Novas publicações se iniciam, como o diário integralista A Monarquia (Lisboa) ou A Batalha, iniciativa da União Operária Nacional, na qual colaboraram nomes como Campos Lima, António Sérgio, Tomás da Fonseca, Vitorino Nemésio ou José Régio.

Em Coimbra, fazem manchetes nas páginas da imprensa local e regional: abertura do caminho de ferro de Coimbra a Arganil, criação do Tribunal da Relação, o fornecimento de energia elétrica, o Problema Agrícola (deficiente produção de trigo e recurso à importação), aumento da prostituição, a legislação sobre oficiais milicianos, o Congresso Nacional Socialista, o assoreamento do Mondego, a Proteção à Infância, as eleições camarárias, o abandono votado ao bairro de Santo António dos Olivais, a Questão Académica ou a censura sobre a imprensa.

Neste contexto, de convulsões sociais e políticas, de afirmação dos princípios republicanos e de defesa dos interesses da cidade, apareceria um novo jornal: “O Despertar”, com o n.º 1 a publicar-se no dia 02 de março. Um bi-semanário (terças e sextas feiras), que se autointitulava «republicano e independente», tendo como proprietário e administrador João Henriques, na função de diretor José Pires de Matos Miguens e, na de Editor, José Henriques. A redação e administração funcionavam na Rua Dr. Pedro Rôxa nos números 25 e 31, dispondo de tipografia própria.

Passam hoje 100 anos desse pequeno grande momento. Parabéns!

JOÃO PINHO  (Historiador e investigador)


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