6 de Abril de 2020 | Coimbra
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Manuel Bontempo: uma vida inteira dedicada a “O Despertar”

27 de Setembro 2018

Manuel Bontempo é, sem dúvida, um marco na vida de “O Despertar”. Começou a colaborar com o jornal em 1952, quando tinha apenas 22 anos, e nunca mais parou. Sessenta e cinco anos depois, é com muito, muito orgulho e emoção que está hoje connosco a celebrar este Centenário. Numa conversa aberta e saudosista, o mais antigo colaborador recorda alguns dos amigos que ajudaram a construir o jornal, evoca alguns dos momentos marcantes do seu percurso e sublinha a “influência poderosíssima” que “O Despertar” teve para que Coimbra seja o que é hoje. Não esconde a sua “paixão” pela cidade do Mondego e pelo “seu Despertar”, jornal que continua a ser “uma fórmula de amor” que “alimenta” o corpo e a alma.

Sessenta e cinco anos de colaboração representam uma vida de dedicação a um projeto que sente também como seu. Manuel Bontempo chegou a “O Despertar” em 1952, quando tinha apenas 22 anos. Enviou, por iniciativa própria, uma crónica para a redação. António de Sousa, na altura já proprietário e Diretor, não se limitou a publicá-la. Convidou o autor a associar-se à “família” de “O Despertar” e a assumir uma colaboração regular.

Apesar da sua juventude e da azáfama profissional que o obrigava a não permanecer muito tempo no mesmo sítio, Manuel Bontempo aceitou o convite, tornando-se assim numa presença assídua nas páginas do jornal e assumindo-se como mais uma voz ativa na defesa de Coimbra.

Hoje, 65 anos depois, recorda que, “naquela época, o jornal tinha um peso enorme em Coimbra”, sendo lido por “todos os estratos da sociedade coimbrã”. O bi-semanário de Coimbra saía às quartas e sextas feiras (o que sucedeu até aos primeiros anos do século XXI) e as pessoas aguardavam-no. “Havia curiosidade em lê-lo. Tínhamos um grupo de colaboradores com um peso intelectual e cultural muito vincado, como o Octaviano de Sá, Mário Temido, Falcão Machado, Sílvio Pélico,… todos eles formados na nossa Universidade e colaboradores assíduos que escreviam por amor à causa, sem qualquer tipo de remuneração”, conta.

Manuel Bontempo recorda que qualquer um dos colaboradores sempre se pautou pela defesa de Coimbra e pelo seu desenvolvimento. “Muitos dos projetos que se concretizaram na cidade foram antes debatidos e mesmo reivindicados n’ ‘O Despertar’”, explica, sublinhando que “o jornal vivia Coimbra com um amor acrisolado” e que “Coimbra era para ‘O Despertar’ como uma almofada, como uma bem amada”.

Esse “amor” traduziu-se na defesa de grandes obras. A piscina fluvial, mesmo em frente ao Parque da Cidade, é um dos muitos exemplos que recorda. O assunto mereceu grande destaque nas páginas do jornal. “Era uma obra inédita na cidade e toda a população de Coimbra ia para a praia. Formaram-se aí grandes campeões”, conta, explicando que “O Despertar” era “um palco de debate de ideias livre e plural”, onde “o colaborador não tinha qualquer problema de opinar e de defender aquilo em que acreditava”.

Censura não “calou” quem sempre defendeu Coimbra

Mesmo em tempos mais “duros”, como os anos marcados pela censura, “o jornal defendeu sempre a sua liberdade e a expressão dos seus colaboradores nunca foi tocada ou retocada”, recorda. Explica que “O Despertar” soube lidar com esse período do Estado Novo, que “a equipa conhecia bem os perigos de uma expressão mais contundente”, por isso “escrevia com intensidade porque focava-se essencialmente nos problemas de Coimbra e aí a censura não tinha onde tocar”.

Apesar de muitas edições terem sido revistas pela censura, a equipa focou-se sempre no desenvolvimento da cidade, não só no que toca a grandes obras mas também a nível cultural e na defesa do seu património construído e natural. Havia sempre “uma voz denunciadora” que alertava, por exemplo, para o abandono a que a Igreja Santa Cruz estava votada, para a importância do Choupal ou para os danos que se iam verificando no património.

“‘O Despertar’ teve uma influência poderosíssima no que Coimbra é hoje. Os seus colaboradores não deixavam, de nenhuma maneira, que o sentimento conimbricense morresse. Lutaram sempre incessantemente pelos valores patrimoniais, humanos, paisagísticos e sociais da cidade…”, acrescenta.

Ouro e Diamante e agora… o Centenário

Apesar de preferir “olhar o presente com olhos no futuro”, neste momento de celebração, Manuel Bontempo não pode deixar de recordar o passado com “saudade e nostalgia”. Ao longo de 65 anos tem vivido “O Despertar” como seu e é com uma alegria imensa que recorda que esteve presente em tantos momentos marcantes deste percurso, como as Bodas de Ouro e as Bodas de Diamante.

É com pesar que recorda também os momentos menos felizes, como as despedidas. “Recordo tantas vezes as figuras ilustres do jornal, que conviveram comigo e que continuam no meu coração”, diz, emocionado, assegurando que “todos fizeram de ‘O Despertar’ o paladino da defesa integral de Coimbra”.

Recorda o amigo António de Sousa e, na família, todos os que se lhe seguiram – António, Armando e Artur de Almeida e Sousa e, mais tarde, Fausto Correia. Manteve com todos uma relação de amizade, um sentimento recíproco que a vida alimentou. O afeto foi bem evidente, por exemplo, no dia em que o pai faleceu e em que era esperado na Estação, quando regressava de Lisboa, por todos eles, que o apoiaram, de forma incansável, nesse momento de sofrimento.

Apesar da boa relação que com todos manteve, não esconde a admiração que tinha por Armando de Almeida e Sousa. Considera que “foi o Diretor mais dinâmico, mais entusiasta, mais amante de Coimbra mas também mais amável e gentil” que “O Despertar” teve.

Recorda o homem “popular, que comungava com toda a gente, de todos os estratos da sociedade” e que “morreu estupidamente, tão antes do tempo”, como acabaria também por suceder, anos mais tarde, com o sobrinho Fausto Correia, outro dos diretores que recorda com saudade. “O Fausto tinha uma vocação ímpar para o jornalismo, que se acentuou mais depois da licenciatura em Direito. Foi um homem politicamente muito instruído, uma pessoa extraordinária, que escrevia fantasticamente e que, como político, nos deixou um importante legado, como é o caso das Lojas do Cidadão”. Não esquece a sua “paixão pelo jornal” e a forma entusiasta como vivia este Centenário. “Morreu de forma inesperada. Foi uma perda tremenda”, frisa, evocando também a sua mãe, Lúcia de Sousa, uma mulher que viveu intensamente o jornal e com o qual colaborou até falecer.

Apesar destas perdas, Manuel Bontempo, homem de afetos e também de fé, acredita que chegar a estes 100 anos é um motivo de regozijo para todos e uma homenagem que se presta a quem viveu este jornal. Estar hoje a festejar o Centenário, depois das celebrações das Bodas de Ouro e de Diamante, é para si “um orgulho e uma emoção”.

“O jornal sempre foi um corpo dinâmico, que enfrentou as dificuldades com garra e determinação e que soube conquistar o respeito dos conimbricenses e de todo o distrito. Chegar aos 100 anos só pode ser um motivo de festa para todos”, sublinha.

Distância nunca impediu colaboração regular

Ao longo destes 65 anos, Manuel Bontempo é um exemplo vivo da dedicação e do amor a “O Despertar”. Houve uma época, por volta da década 60/70, em que está praticamente sozinho a colaborar com o jornal. O desaparecimento de alguns colaboradores, nalguns casos de forma muito repentina, deixou o jornal bastante “desamparado” e era preciso que retomasse a sua dinâmica.

Manuel Bontempo nunca falhou e, mesmo à distância, manteve sempre a sua colaboração regular, assegurando muitos dos textos que o jornal trazia à estampa. Os artigos chegavam por carta, primeiro de Lisboa e depois de Paris.

“Houve um tempo em que não foi fácil. Vários colaboradores faleceram e eu tinha que enviar os textos de Lisboa para Coimbra para preencher as páginas do jornal porque ele tinha que continuar a sair às quartas e às sextas feiras”, recorda.

Mas nunca o fez por obrigação. Havia, como ainda há hoje, um “amor imenso” pelo jornal e nunca lhe faltou assunto para escrever, apesar de, na altura, colaborar também com o Diário de Lisboa.

Esta colaboração manteve-se também quando viveu em Paris. Durante os cinco/seis anos que passou em França, enviou sempre, com regularidade, as suas crónicas, nunca perdendo a ligação com o jornal e também com a sua cidade, que sempre o encantou e que viu crescer e transformar-se.

“Como estive 33 anos a trabalhar em Lisboa e em Paris, facilmente me apercebia, nas minhas visitas regulares, que a cidade estava a avançar lenta mas progressivamente”, recorda. Esses avanços conduziram-na ao que é hoje, “uma cidade com maravilhosos recantos, moderna, capaz de prender os turistas nacionais e estrangeiros”.

Lamenta que “os filhos de Coimbra” nem sempre a valorizem como deveriam e considera que “Coimbra é, atualmente, uma cidade que prende e que encanta”. A si, assume, encantou-o “sempre através do tempo, mesmo quando era quase uma aldeia”.

Este encanto que sentia por Coimbra e pelo “O Despertar” nunca desapareceu e vai acompanhá-lo sempre. “O jornal foi um amor sacro santo para mim. Era uma fibra sensitiva no meu corpo, no meu espírito… Ainda continua a sê-lo. ‘O Despertar’ continua a ser uma fórmula de amor que me irá acompanhar para todo o sempre”, termina.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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