14 de Maio de 2021 | Coimbra
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MANUEL BONTEMPO

Livro de contos de Adélia Drago

20 de Setembro 2019

É um livro de contos rasgados do mundo social onde se movimentam as personagens e revela literalmente na limpidez uma argumentação de um humanismo ativo como desenha as personagens, ambientes, a inteleção de várias páginas que fazem deste livro o exercício dos sentimentos e emoções.

De gente que vive, sofre, ri e onde perpassa a angústia existencial em todas as páginas, a agitação do homem perplexo com as barreiras do quotidiano, de experiências vividas pela autora nas viagens nos anos 90 do século passado expostas de forma singular no acervo de crises da época em que se descobre o homem solitário, rastejando ou erguendo-se sempre com presença pessoal da escritora, memoralista cheia de afeto presencista pelo explorados.

Equações sociais e a luta do homem em círculos fechados, o desemprego, o amor desfeito à primeira viração leva a pensar ser o livro de um romantismo subjetivista ou de situação paradoxal sem solução social e política.

Livro amargo. E não será?

É sempre agradável rever os livros desta escritora e o “Entardecer do Dia”, na sua expressão simbólica e numa nova atitude estética na prosa, no idioma, no individualismo que tem por suporte a vida, a engrenagem ou obstáculos postos no caminho de quem deseja sobreviver à derrocada da humanidade, da barbárie que se vive, a autora de formação jurídica concentra muitas figuras da sua criação artística, cuidadosamente examinada num senso moralista.

O livro é também, quanto a nós, um desafio à inteligência e sensibilidade do leitor.

Vitaliza a escrita num género um tanto ou quanto desprezado no país e Adélia Drago esculta este mundo e visa a expressão natural do sintoma de solidão onde se mexe o homem ou as pessoas possessas de frustração e vítimas de políticas que fazem o ser enquanto este se vá despregando num mundo sem alma.

Páginas que abrangem o leitor atento a largos períodos da história do homem e da mulher que lutam pela afirmação ou por um lugar ao sol que a política obsta e torna o mais fraco num joguete dos mais poderosos, dos corruptos, dos criminosos natos, do capital selvagem.

Situa os seus contos de grande riqueza verbal nos limites que traduzem pela construção dos elementos humanos, do rigor, a beleza da leitura, de se gostar, de passar página a página.

Os livros que saíram do consagrado Paulo Ilharco, Regina Lory e de Adélia Drago, de formação académica e um ou outro com reminiscência de Alves Redol no seu neorrealismo ou mesmo Manuel da Fonseca, mas todos numa escrita escorreita acentuamente antropomórfica do homem-cidade, do homem-terra num desenvolvimento de faculdades inteletivas!

Livro, por vezes, inquietante.

No conto “Maria das Flores” a escritora constrói a trama, invulgarmente como coloca a figura humana na perfeição dos diálogos onde fica a contista válida nos seus livros.

Livro, por vezes, inquietante. É construído numa linguagem cuidada, mesmo fora do habitual, como esta escritora usasse um novo estruturismo, ou uma nova crítica, que fosse o aferidor do seu labor mental, da sua filologia ou pedagogia para ver e recriar a vida através de sistemas genuínos, natos, do homem desnudado, em parentescos, signos, formas, surgindo as histórias limpas e enriquecidas de humanidade.


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