18 de Julho de 2024 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Livralhada

9 de Outubro 2020

As folhas embrulhavam-se debaixo dos meus pés, num nostálgico compasso outonal. O vento teimava em soprar, anunciando chuva dos lados do mar, enganando os turistas que ao olhar o leito do Mondego lhes parecia que este corre para o nascente. A natureza bem gosta de brincar com o Homem e assim brincara comigo num pontapear de folhas que de vez em quando me caíam sobre a cabeça. A passarada via-se fugir dos arvoredos, plantas que se vão despindo numa leve senescência, e eu num caminho de afazeres, parecia mandado por esse próprio vento tão acelerado, como a vida cotia de uma sociedade que vive em constante correria. Trilhando as ruas da urbe eis que um bando de papelada saiu excomungado de uma porta entreaberta. Logo percebera que alguém ficara aflito com tal aparato que me viria a atrasar ao que ia. Deparava-me com uma livraria ali bem próximo da grande Praça. “Muito obrigado rapaz!” Agradeceu-me um nobre senhor já com traços de uma velhice apurada. Levantámos os rostos do chão e com as mãos cheias de papelada logo reconheci o rosto daquele homem que há tempos não via. Entrei naquele corredor estreito ladeado de estantes e prateleiras, como um templo de uma só nave, sim, um templo dos livros. Como de costume ginastiquei as minhas retinas para conseguir ler as lombadas dos livros que me gritavam ora nas prateleiras mais baixas ou nas pilhas mais perigosas que até dá receio de mexer. Mas, nestes lugares não posso deixar de devorar delicadamente o que consigo, acabando regularmente embrulhado num grande role de títulos. As palavras foram poucas e logo me senti num meio fraterno onde já nos parecíamos conhecer, o alfarrabista, eu e os livros. Quando entro num antiquário do género é logo ditada a demora.

Os livreiros/alfarrabistas além de peritos negociantes são dos mais fiéis socorristas da livralhada. Felizmente eles existem, pessoas ainda mais viciadas do que eu nesta droga de pó e papel que nos apraz a alma e nos incute parte da cultura que acolhemos.

Num país tão letrado, rico em clássicos e obras tão raras chega hoje a haver mais livros que escritores. De Norte a Sul estes salvadores de uma mestria particular são cada vez menos abundantes. Culpam o português de não querer ler, o colecionador de ter poucas posses para as raridades, as novas gerações pelo desinteresse no papel, enfim, muitas são as causas, mas felizmente subsistem, por enquanto, como negócio e profissão histórica.

Falando da Lusa Atenas, contam-se com os dedos das mãos os alfarrabistas e antiquários existentes. A “cidade intelectual” viu partir dezenas de livreiros e editoras. Muitos exemplos se podem referir entre muitos deles recentes. Ficou mais pobre o Adro de Baixo, o Largo da Freiria, entre outras ruas e recantos onde existiam. Aos cem anos, a Coimbra Editora falece perante uma cidade e uma academia que tanto rolou em torno desta editora secular. Pena que Coimbra deixe fugir estas empresas que em parte a descrevem como a cidade do conhecimento. Haverá uma certa força cultural e editorial ausente que seria urgente ascender de novo na cidade dos estudantes.

Fascículos de jornais e revistas que elencam a curiosidade, monografias e estudos preciosos sobre a cultura e património, as primeiras edições de Eça, de Antero, de Torga e tantos outros, tudo continua por essas estantes e gavetas que vagueio como tantos, numa absorção e salvação cultural que parece estar incumbida aos leitores, amantes e colecionadores da livralhada.


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