22 de Fevereiro de 2020 | Coimbra
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Isabel de Aragão fez anos na passada terça feira

14 de Fevereiro 2020

Isabel de Aragão, filha de Dom Pedro III e Dona Constança de Sicília, da casa real espanhola, adotou o nome da sua Santa tia-avó que, em hebreu, significa “cheia de Deus”. Teve vários irmãos e viveu a maior parte da sua infância em Barcelona.

Ficou conhecida por ser uma monarca piedosa, bondosa, inteligente, com gosto pela oração, pelo poder em gerar afetos e reconciliações e, sobretudo, pelos seus milagres.

São 750 anos, assinalados na passada terça feira. Estima-se que nasceu a 11 de fevereiro de 1270 em Aragão, na Espanha.

No entanto, e segundo Joaquim Costa e Nora, presidente da mesa administrativa da Confraria Rainha Santa Isabel, não existem certezas relativamente à data do seu nascimento, na sequência da inexistência de certidões naquela época. Porém, António de Vasconcelos, autor da obra “Rainha Santa Isabel de Portugal” e Maria José Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras e autora do livro “D. Isabel de Aragão, Rainha Santa”, entendem que esta é a data correta.

Joaquim Costa e Nora explica, ainda, que neste período histórico a contagem do tempo era muito diferente da atual. Pois, em Portugal seguia-se a Era de César, enquanto em Aragão já se seguia a Era de Cristo, cujo calendário se iniciava a 25 de março, sendo que os dias que se antepunham estavam no ano anterior. Ou seja, é provável que a rainha Isabel possa ter nascido em 1271.

De acordo com o presidente, existe a probabilidade de o dia do seu nascimento estar influenciado pelo seu contrato de casamento, que acontecera no mesmo dia e mês. Portanto, “dia 11 não é universalmente aceite como data”, adianta.

Casamento e devoção

Cobiçada por várias coroas, Isabel de Aragão casa-se com o rei Dom Dinis, de acordo com uma estratégia planeada pelo seu pai, que consistia no facto de este querer ver a sua filha deixar o reino como rainha. O rei português, de 19 anos, que subira ao trono em 1279, era conhecido por ser um monarca culto, poeta, trovador e neto de Afonso X, “O Sábio”. Além disso, era já dono de um reino da Península Ibérica conhecido pelos seus “vitoriosos e valentes guerreiros”.

A 11 de fevereiro de 1281 realizou-se, ainda em Barcelona e por procuração, o casamento que mais tarde se viria a consumar na vila de Trancoso, no mês de junho.

Muda-se para Coimbra em outubro do mesmo ano, cidade onde se torna rainha, mãe dos filhos Afonso (futuro Afonso IV de Portugal) e Constança.

O matrimónio de 44 anos durou até à morte do monarca. A partir daí, a rainha, devota da Virgem Santíssima, Santa Clara e São Tiago, tornou-se peregrina até São Tiago de Compostela e passou a vestir o hábito das monjas de Santa Clara (negro, castanho escuro, com cordão franciscano, touca e véu), fixando a sua morada no Convento das Clarissas.

Em dezembro de 1327, a rainha escreve o seu segundo testamento, onde entrega o seu corpo, num túmulo de pedra branca, à igreja do seu mosteiro, em Santa Clara. Ao contrário do seu primeiro testamento que dizia que a sua vontade era ser sepultada juntamente com o seu esposo, em Odivelas.

Hora da morte

Segundo Joaquim Costa e Nora, a pretexto de um conflito entre o seu filho D. Afonso IV de Portugal e o neto D. Afonso XI de Castela, a rainha Isabel desloca-se a Estremoz, numa ação de paz, com o intuito de evitar uma guerra. Com cerca de 65 anos e uma saúde delicada, a monarca falece na cidade alentejana, em consequência de uma febre que, segundo consta, nasceu de um abcesso no braço, a 4 de julho de 1336.

Segundo um excerto do livro “Santos de Portugal, Rainha Santa Isabel”, “contam os seus biógrafos que, já perto do momento de expirar, se levantou do seu leito de morte e disse à rainha Beatriz que a assistia: «filha, levanta-te e sai para receber essa senhora que me vem consolar». «Minha mãe, de que senhora fala?», respondeu a sua nora. «Então! – replicou Isabel, transfigurada – Não vês essa senhora de vestes brancas, tão formosa?». Pouco depois, Santa Isabel proferiu a sua oração preferida e “então fechou suavemente os olhos, como num doce sono, para despertar na glória.”

No dia seguinte à sua morte, o seu filho ordena a transladação do corpo para Coimbra, onde chega dia 11 do mesmo mês, cujo túmulo é depositado na capela do Convento de Santa Clara, que a própria mãe mandou construir.

Conta-se que, na hora do transporte do seu corpo, em pleno verão, o cadáver não apresentava qualquer tipo de decomposição, mas exalava um cheiro a rosas.

Canonização

Antes de se tornar Santa, Isabel de Aragão já tinha ganhado a devoção do seu povo no âmbito da paz e da ajuda dada aos pobres, doentes e com a criação de várias instituições, nomeadamente um hospital, uma casa de acolhimento para mulheres, um orfanato para crianças sem família, entre outros.

Segundo Joaquim Costa e Nora, na altura havia “uma grande promiscuidade entre cristãos e não-cristãos, mas sobretudo, os sarracenos” (árabes e muçulmanos na idade média). Todavia, “o espírito de paz que animou Santa Isabel foi muito oportuno. E talvez, Dom Manuel quisesse associar esta devoção a algo mais”.

Entretanto, o povo começava a venerar os restos mortais da rainha, a prestar-lhe culto, acreditando nos seus milagres e na sua santidade. Assim, o rei acaba por solicitar, à Santa Sé, a beatificação da rainha concedida pelo Papa Leão X, num breve datado, a 15 de abril de 1516.

No seu âmbito, foi fundado o culto religioso da beata Isabel na Diocese de Coimbra, difundido por todo o reino em 1556 e fundada, na sua sequência a Confraria Rainha Santa Isabel, por vontade das irmãs do Convento de Santa Clara.

A 26 de março de 1612, procedeu-se à abertura do túmulo onde, alegadamente e segundo quem viu, o corpo estava inteiro, sem qualquer sinal de decomposição e com um leve perfume. Posto isto, 10 anos depois, a 25 de maio de 1625, o Papa Urbano VIII canoniza-a, em cerimónia solene, enquanto no dia 14 de julho do mesmo ano, o rei Filipe III a proclama padroeira do país.

No entanto, e segundo o atual presidente da instituição, acredita-se que a sua canonização, realizada durante o período do reinado da dinastia filipina de Espanha, tenha sido patrocinada por Filipe II, “o que não é totalmente verdade”, apesar da sua influência em Roma.

Joaquim Costa e Nora explica que houve um homem em Coimbra, de nome Dom Afonso Castelo-Branco, na altura bispo da cidade, que “promoveu a abertura do túmulo, com a presença de três mestres de medicina, que atestaram o estado do corpo”. Todavia, para tal feito, era necessária a autorização real de modo a que este pudesse doar a quantia.

Após a independência de Portugal, o rei D. João IV mandou construir o mosteiro novo de Santa Clara, em honra da padroeira, onde iria acolher as irmãs clarissas e o túmulo de prata da Rainha Santa Isabel, ainda patrocinado por Dom Afonso Castelo-Branco.


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