25 de Setembro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

Identidades

31 de Outubro 2019

Não deixa de ser curioso encontrar ainda hoje elos e afinidades de quem saiu das suas terras e, na sequência de tais mudanças, fazer questão de deixar patentes as suas origens, das mais variadas formas. Exemplo disso e ainda hoje autêntico, acontece com os nossos emigrantes na América, onde é permitido apor, nas matrículas das suas viaturas, múltiplas referências, acontecendo que a maior parte opta por gravar ali o nome do local onde nasceu. – É uma forma de nos lembrarmos dele, cada vez que entramos no carro, contava-nos um desses emigrantes -, ao mostrar-nos no telemóvel a fotografia da viatura onde tal constava.

Hoje, porém, e dentro deste mesmo espírito onde sempre pairam as saudades, referimos esta outra realidade mesmo quando a distância que separa as pessoas nem sequer é grande, mas mantém o cunho da identidade. Lembramos aqui os casamentos de ontem, e falamos dos que aconteciam entre gente da Bairrada e da Gândara, duas regiões vizinhas que sempre se tocaram.

É sabido que o tipo de construção e muito particularmente os materiais nela utilizados eram diferentes: na Bairrada, região dos mais diversos barros e bárrios, de onde lhe provém o nome e onde a vinha sempre foi rainha, havia de entre os muitos barros o vermelho, que era utilizado desde os primórdios para o fabrico de tijolos e telhas. Já na Gândara a construção era mais débil, feita com adobes secos ao sol e muitas vezes dividida com tabiques e argamassas, enquanto a textura do terreno era arenosa e consequentemente a produção agrícola muito pobre.

Esta diferenciação dos terrenos não era no entanto impeditiva que os rapazes de lá viessem namorar e casar com as raparigas de cá, ou vice-versa. Curiosamente era com a vinda daqueles ou daquelas, da Bairrada para a Gândara, que acabaria por se materializar este fenómeno de carácter essencialmente afetivo: se era o rapaz que por aqui ficava e construía casa e adega, a abertura por onde depois viriam a ser descarregadas as uvas era sempre virada para a Bairrada e decorada no exterior por tijolos burros, diferenciando-se das cantarias usadas na restante construção. Se não tinha adega eram também estes tijolos que guarneciam a janela da empena da casa, igualmente virada para a terra da sua proveniência. Quando era a mulher que vinha, o mesmo acontecia, mas agora com a janela e porta da cozinha, ambas também viradas para a Bairrada, e igualmente alindadas pelos ditos tijolos, em vez das tradicionais cantarias. Neste caso, sustentava-se por ali que o homem, quando construiu a casa, pretendeu respeitar a mulher e com isso aliviar as saudades que esta tinha da sua terra.


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