16 de Setembro de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

E tudo o tempo levou…

20 de Março 2020

“Em Janeiro sobe ao outeiro, se vires verdejar põe-te a chorar, se vires terrear põe-te a cantar.”

“Fevereiro quente, traz o diabo no ventre.”

“Março Marçagão, de manhã Inverno, à tarde Verão.”

São muitas as expressões e provérbios que o povo português ostenta na sua sabedoria popular, transmitindo-os ao longo de gerações, fazendo-nos chegar adágios relativos ao clima, à alimentação, aos trabalhos do campo, aos elementos da natureza, até mesmo às feições e atitudes do Homem e dos animais. Chega a ser de uso cotio esta herança que se ouve frequentemente, em especial pela voz das pessoas mais velhas. Há nestas expressões um significado concreto e objetivo que leva a refletir e a apresentar as coisas como elas são. No entanto assistimos já atualmente a uma realidade incerta perante os provérbios relativos às “façanhas do tempo”, sendo já notável a instabilidade destas expressões perante as condições climáticas com que nos deparamos.

Falar de arremendas e arremedilhas nos primeiros dias de Janeiro é referir um costume que ainda se usa, pena que a tendência é que de ano para ano coisas do género deixem de fazer qualquer sentido. As alterações climáticas impuseram uma certa incredibilidade nestas expressões. Apesar de tudo esperemos que não seja rápido o declínio na perda deste legado oral, seja na literatura, seja na voz do povo português que tem um dos mais ricos dicionários de provérbios, adágios e ditados, fazendo também eles parte da nossa identidade cultural.

“Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso e Maio ventoso, fazem o ano formoso.”

Num século onde as consequências do aquecimento global são cada vez mais nítidas e sofríveis já é de sentir que vivemos num país com um clima cada vez mais seco, mais frio, menos geoso e de neve, com pouca precipitação e constantes depressões climáticas repentinas previamente batizadas, mudanças cientificamente esclarecidas. Começa assim a ser duvidoso o sentido das expressões que ficarão sempre na nossa memória. O próprio Homem continua a cometer fortes erros, agravam-se os conflitos económicos e climáticos e dificilmente voltaremos a entender o tempo como o povo de antanho tão bem o entendia e previa.

Saudades teremos dos “tempos” em que o “tempo” assim era,

«Quatro coisas há no mundo

Que nunca lhe faltarão:

As trovoadas de Maio,

A névoa de S. João,

O Verão plo’ S. Martinho,

E Tempestade plo’ S. Simão.»


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