26 de Outubro de 2020 | Coimbra
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Diferentes abordagens da velhice

16 de Outubro 2020

Por António Vinhal

Num povoado da Mongólia chinesa, a velhice representava um fardo

incapaz de ser suportado pelos depauperados agregados familiares,

desamparados e perdidos na profundeza de um deserto de relações sociais e governamentais.

No início da minha puberdade, ou na tardo-infância, tive a oportunidade de ver um filme – ou seria um comentário? – sobre o modo de abordar o problema da velhice numa comunidade na China profunda das montanhas semiáridas do centro da Ásia. Do filme ou do documentário não recordo nenhuma referência dos atores, do realizador nem mesmo do operador. Tratar-se-ia de um mero comentário, pró ou contra não sei, no apogeu do maoismo.

Tudo isso está para lá da bruma de mais de sessenta anos passados, e o mais que consigo recordar são apenas pequenos flashes de imagens que me impressionaram profundamente e continuam a impressionar sempre que me confronto com o modo de tratar a velhice nos tempos atuais e como vivi o outro modelo humanista da minha meninice. Por esta razão não estou descartando a hipótese de se ter tratado de um mero comentário com fins políticos. Estávamos no tempo desconcertante do após segunda guerra da consolidação do comunismo na Europa de leste e da vitória do maoismo na China que traziam nuvens negras para a paz no mundo e para as ideias liberais e neoliberais dominantes na Europa, com o avanço do Plano Marshall e a euforia da vitória aliada. Portanto, fica claro que a esta distância do tempo e a brejeirice da memória, que recria quando recorda, o que trago hoje aqui são pequenos flashes de imagens poderosas que me marcaram, mas cuja paternidade e contextualização não posso de todo garantir.

Num povoado da Mongólia chinesa, pobre e muito distante dos centros do desenvolvimento económico, na altura essencialmente agrícola e primitivo, a velhice representava um fardo incapaz de ser suportado pelos depauperados agregados familiares, desamparados e perdidos na profundeza de um deserto de relações sociais e governamentais. A família, a avó, um casal e os respetivos filhos, deixou de ser capaz de produzir o bastante para sustentar a todos. E começaram a aparecer as pequenas disputas pelo grão de arroz que caía da malga ou o último gole de chá. E os olhares sorrateiros para a avó cruzavam-se no pequeno espaço da refeição, se é que lhe podemos chamar assim.

Não viu ninguém, ninguém a viu partir. Descalça e uma saia a varrer o chão, dobrada em V com a cabeça quase a tocar o solo, iniciou a íngreme encosta que a levaria ao cimo do monte, o seu destino, se lá chegasse

Um dia de madrugada, quando a avó se levantou e foi parar ao espaço destinado ao que poderíamos chamar de cozinha encontrou sobre a mesa uma pequena sacola com um único pão de arroz e, ao lado, um cantil com água. A avó entendeu o sinal. Significava o último adeus. A avó olhou para todos os lados, como que para revisitar todos os espaços e todos os tempos, nos olhos duas lágrimas teimosas, no rosto o desalento. Por breves instantes sentou-se num banquito feito de bambu, encolheu a cabeça entre os ombros e duas mãos enrugadas e enegrecidas. Alçou-se lentamente, como sonâmbula, pegou na trouxa e no cantil, e partiu porta fora.

Não viu ninguém, ninguém a viu partir. Descalça e uma saia a varrer o chão, dobrada em V com a cabeça quase a tocar o solo, iniciou a íngreme encosta que a levaria ao cimo do monte, o seu destino, se lá chegasse. De vez em quando, sobretudo nas encruzilhadas do caminho, cruzava-se com crânios humanos descarnados, sem órbitas, esqueletos desarrumados de que os animais haviam comido tudo o que puderam. A avó parava por vezes como se reconhecesse algum daqueles olhares vazios. E continuava subindo a ladeira. Lentamente, como quem morre sem pressa e sem vacilar. De longe a longe, abria a sacola para tirar uma migalha do pão de arroz; de longe a longe molhava os lábios com a água do cantil. Às vezes sentava-se exausta da subida num dos ângulos das numerosas encruzilhadas do caminho. Sem desespero nem angústia; apenas fatigada e fustigada pela vida.

Não me lembro se atingiu o cume nem o que aconteceu depois. Ficaram-me apenas as imagens do fim de vida, subindo sempre a ladeira semeada de ossadas e crânios vazios.

À volta da lareira e à luz ténue da candeia a petróleo, sentavam-se o pai e as mulheres da casa, uma fazendo uma camisola quentinha para o inverno, outra bordando a barra do lençol, a mãe tricotando e todos falando disto e daquilo, trocando opiniões e programando o trabalho do dia seguinte.

Na minha aldeia, na minha meninice e na minha casa, a avó fazia parte integrante da família. Tinha opinião, sempre respeitada, em todos os assuntos da família, participava em todas as decisões, recordava e aconselhava, advertia e apoiava. Como era madrinha de alguns de nós, todos a chamávamos de madrinha e ainda hoje é assim que a evocamos.

A madrinha era exímia na fiação do linho. Lembro-me de a ver de roca ao peito e fuso na mão, dedilhando ternura e habilidade no fazer do fio para um lençol, uma camisa mas sobretudo para o enxoval das netas e afilhadas. Nas longas noites de inverno, lembro o pai a ler alto para toda a gente o Jornal de Vouzela, mesmo e sobretudo a necrologia, porque era ‘irmão’ de uma das irmandades da paróquia e acompanhar os irmãos na viagem para a última morada era um dever absolutamente incontornável. À volta da lareira e à luz ténue da candeia a petróleo, sentavam-se o pai e as mulheres da casa, uma fazendo uma camisola quentinha para o inverno, outra bordando a barra do lençol de cima, a mãe tricotando e todos falando disto e daquilo, trocando opiniões e programando o trabalho do dia seguinte. Nós, os miúdos, dormitávamos encostados ao ombro de alguém, um olho aberto o outro fechado, tomando nota de tudo o que se passava à volta.

Mais para o final da vida, a madrinha passou a sofrer de alzheimer, mas nem aí deixou de pertencer ao clã ou a sua opinião deixou de ser ouvida, respeitada e tida em linha de conta no que conviesse. O pai, que era o filho e a mãe, que era a nora, é que providenciavam para que tomasse banho, os medicamentos e o chá de ervas para as diferentes maleitas. Morreu nos braços do filho, ia fazer noventa e seis anos de idade. Foi a mãe a fechar-lhe os olhos pela última vez. Às quatro da tarde, os sinos da igreja dobraram a finados – paz à sua alma.

Este cuidado no tratar o outro mais velho, continua a ser um modelo de abordagem da velhice, na melhor tradição portuguesa.

Mas hoje já não fazemos nada assim. A civilização urbana, em claro antagonismo com a civilização rural, trouxe novos modelos, simplificações e abordagens.

Quando vemos que a coisa está para acabar, pedimos um empréstimo ao banco para pagar umas férias nas Maldivas ou por aí perto. Viremos a correr se alguém nos telefonar a informar do decesso. Entretanto, para não termos que nos aborrecer, mandamos os filhos para o infantário e os pais para o lar. Como o Estado não garante lar para todos e os lares piratas são mais baratos, são estes os que preferimos. Estão cheios de velhos abandonados e, agora, de covil-19. Pode até acontecer que da reforma do velho sobre alguma coisa para outras férias nas Caraíbas. Quando regressarem das férias, aposto que vão comprar umas flores baratuchas para pôr na campa e durante todo o ano irão recordar aos amigos como se divertiram nas férias e como vieram bronzeados de fazer inveja.


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