10 de Maio de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Deslumbramentos

19 de Março 2021

Vi acordar a cidade num desses dias solarengos, numa destas últimas manhãs de inverno. A verdura ainda orvalhada por esses caminhos, decorados de tímidos botões que aos poucos sorriem ao sol. Acompanhei o Mondego por instantes, no seu percurso deleitoso, parando junto dele numa mera contemplação.

Um passeio à beira rio, uma corrida matinal, o Homem preenche o espaço em novas rotinas, com a nostalgia de um cotio não muito distante. O dia ia clareando com intensidade, iluminando a colina de uma cidade resistente que aclama para que a deixem continuar a resistir. Os jardins salpicam-na de verde, picotando-a numa bandeira natural de esperança. Pena que essa mesma botânica a que se assiste continue num rumo imperfeito, sim, essas árvores quase decapitadas, essencialmente espécies ornamentais, cobaias de podas crucialmente radicais. Uma problemática anual, ofensa biológica e paisagística que é já um problema nacional. Lamento que muitos jardineiros saibam cortar (estética) e não podar (anatomia e morfologia botânica). As árvores lutam enquanto podem, num abrolhamento prometido, mas sofrido.

A sociedade vai tentando resistir a uma “prisão” comunitária e voluntária. Faz uma certa impressão a ausência do frenesim habitual, do ruído e do movimento de uma urbe, palco de uma calma forçada, uma estagnação comum num país que aos poucos deseja levantar-se, com receio de avivar a mesma guerra. Os passos vão-se somando nos passeios, à medida que o comércio vai abrindo debaixo de uma crise ofegante. Enquanto o futuro se prevê de luta, o presente estende-se em promessas antigas, como é exemplo o estaleiro habitual num país em ano de autárquicas.

Envolta no genuíno mistério da saudade, Coimbra sente falta dos seus filhos, da sua gente, dos seus estudantes. O casario tem sede desse movimento, desse corrupio que será novo, envolto de uma solidão que deprimiu parte de uma sociedade isolada, sempre tão perto de tudo e que num instante se distanciou. Dessa solidão, numa nova visão “contemporânea”, parecem falar as pedras da Torre de Anto que se impõe à cidade na mensagem de uma solidão de António Nobre, nessa obra tão “Só”, tão fatigada de sentimentos. Daquele amorenado de memórias de uma geração Coimbrã, parecem eclodir das suas janelas, viradas aos quatro pontos cardeais, versos de muitos poetas, sons de muitas guitarras.

É nessa poesia que travo a velocidade das letras. Se esta prosa não fosse lirismo, as palavras seriam cruas, por vezes tão diretas que ferem, como os tempos que se vivem. Por muito que se diga “Vai ficar tudo bem!”, num slogan pandémico de alento, ninguém consegue esconder a anormalidade destes tempos amargos e ausentes. Haja saúde!


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