16 de Julho de 2024 | Coimbra
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De sem-abrigo a segundo melhor trompetista do mundo

2 de Fevereiro 2024

 

Cátia Barbosa

 

Natural de Barcouço, na Mealhada, Luís Martelo tocou pela primeira vez, enquanto trompetista, na banda filarmónica da terra. O percurso adivinhava-se de sucesso, contudo, a vida trocou-lhe as voltas e acabou a viver na rua. Apesar de, por instantes, ter perdido a esperança de voltar ao universo da música, não desistiu. Um bilhete para Londres, oferecido por um amigo, foi suficiente para lhe devolver um futuro que lhe havia sido retirado por força das circunstâncias. Hoje, Luís Martelo é considerado o segundo melhor trompetista do mundo, já recebeu uma distinção da Rainha Isabel II e até vai tocar num filme de Hollywood. Tudo começou quando era ainda uma criança e Fernando Vidal, o seu mentor, lhe deu a conhecer o instrumento que lhe viria a salvar a vida.

 

Campeão das Províncias [CP]: Quando, aos 11 anos, Fernando Vidal lhe apresentou o trompete, que sonhos moravam no seu imaginário?

Luís Martelo [LM]: Nessa altura, o meu sonho era ser paleontólogo. Eu sempre fui fascinado por fósseis e história. Quando ele me deu o primeiro trompete, as coisas mudaram. Não foi só o trompete em si, foi aquilo que ele me pôs a ouvir na altura. Ele tocava na Orquestra da Broadway e no Casino Figueira, então trouxe aqueles clássicos do Glenn Miller, Louis Armstrong, aquelas cassetes antigas. Foi aquele estilo do jazz americano que me fez querer ser aquilo que eu sou hoje, e até hoje é aquilo que eu toco.

 

[CP]: O trompete veio abrir novos horizontes?

[LM]: Sim. Metaforicamente, eu costumo dizer que o trompete salvou a minha vida, porque permitiu exprimir-me e superar desafios de um modo que eu não conseguia fazer de outra forma.

[CP]: Alguma vez duvidou, durante este percurso, de que a música era o caminho e o trompete o instrumento?

[LM]: Duvidar que o trompete era o instrumento, não. Duvidar que a música era o caminho, como fui sem-abrigo, é óbvio que, para mim, a minha vida estava acabada. Quando nós caímos numa situação dessas, infelizmente, até são as pessoas mais próximas, normalmente, na família, que têm aquela mentalidade de “olha-me este desgraçado”. Eu pensava que nunca mais ia sair da rua, embora tivesse muita força e sabia que ia sobreviver, mas seguir na música, não.
Foi graças à pandemia e à oportunidade de estar neste país [Inglaterra] que eu consegui agarrar a música e o trompete novamente.

[CP]: Como é que se dá esse momento?

[LM]: Eu era músico militar. Era requisitado para todo o lado, pelo país todo. Tinha 18 anos, era muito novo. Só que nunca tinha sido habituado a ter dinheiro, nem a estar fora de casa. Sou de uma família com um historial, da parte paterna, muito complicado. Um pai que, por exemplo, nunca me deixou sair. Nunca me deu dinheiro para nada. Bastante violência doméstica comigo e com o meu irmão, mas, sobretudo, com a minha mãe. Então, quando eu me vi sozinho na tropa, perdi-me. Ao fim de quase 4 anos, saí da banda do exército para voltar para casa. Isto coincidiu com os meus pais separarem-se, sendo que a minha mãe ficou na rua comigo e com o meu irmão. Eu decidi ir para Vila Nova de Milfontes, onde acabei como sem-abrigo. Dormia na praia, nas falésias e nas grutas. Vivia da pesca, tráfico de drogas e casas de alterne. No entanto, fiz muitos amigos. Começaram a dar-me trabalho e acabaram por me ajudar. Ao fim de três anos a dormir na rua, no final do verão de 2014, acabaram por me pagar um bilhete para Londres. Cheguei lá com 20 euros no bolso e comecei a trabalhar no dia a seguir.

 

[CP]: Como é que um menino nascido na Mealhada, de repente, é abraçado mundialmente?

[LM]: Estava a trabalhar numa fábrica, em Bristol, quando vi um anúncio que dizia que uma orquestra local estava à procura de um trompetista. Comprei um trompete plástico e fui fazer o concurso. Milagre ou não, entrei, mesmo estando quase dez anos sem tocar. A partir daí, as coisas melhoraram. Resolvi trazer as serenatas de Coimbra para aqui. Isto durante a pandemia. Andava de janela em janela, na rua, nos hospitais e nos lares a tocar para os mais velhos. Foi algo emocionante e que viralizou por aqui. Depois, chegou aos media em Portugal.

 

[CP]: Actualmente, é considerado o segundo melhor tronmpetista do mundo, de acordo com os Global Music Awards. Sente que Londres lhe proporcionou este reencontro com a música?

[LM]: Sim. Eu sou apaixonado por Londres. Uma coisa que eu comecei a perceber aqui é que, em Portugal, o que faz a carreira mais difícil não é o povo, nem o país. São os próprios músicos.
Aqui existe uma amizade entre artistas. Em Portugal, há uma competitividade negativa.

 

[CP]: Há pouco falava do facto de ter começado por tocar serenatas de Coimbra em Londres. Esta foi também uma forma de matar as saudades de casa?

[LM]: Claro que sim. Aliás, é por isso que eu continuo a tocar na rua. É a minha forma de estar mais em contacto com as pessoas. Como estou na rua, encontro pessoas de todo o lado. Então toco música de Cabo Verde, Portugal… Toco Fado. Um bocadinho de tudo. Isso deixa-me muito feliz. Para além de eu matar as saudades, e de me trazer bons sentimentos a mim, acabo por trazer muitas memórias a muita gente.

 

[CP]: No final de 2021 recebeu uma distinção da Rainha Isabel II pelo seu “serviço à comunidade”. O que é que este reconhecimento significou para si?

[LM]: Comecei a tocar em sítios que nunca na vida iria conseguir tocar se não fosse esse prémio. Por exemplo, toquei na Catedral de Wales para a corte toda. Estava lá a família real. Tenho tocado em hotéis cinco estrelas que pertencem à coroa. Tenho feito funerais para tudo o que são altas patentes da Marinha Real e do exército britânico. Toda a gente vem pedir para tirar fotos. Perguntam-me muito “como é que te sentes por teres ganho o prémio da nossa rainha?” As pessoas sentem esse orgulho, quase como se fossem a minha mãe, e isso é muito bom.

 

[CP]: Antes disso, em 2020, também foi convidado a participar num projecto em Hollywood. Como surgiu esta oportunidade?

[LM]: Sim, foi durante a pandemia. Eu tinha um canal, o “Trumpet Player Portugal”, onde fazia entrevistas a trompetistas famosos. O produtor Scott Fivelson viu uma dessas entrevistas e entrou em contacto comigo. Disse-me que estava a produzir um filme sobre a azáfama de uma viagem de Uber dentro da cidade. Mandou-me um áudio a assobiar uma melodia e disse “agora, tens um mês para me apresentar a música”. Foi o que aconteceu. O filme ainda não saiu, mas a música já está disponível no Spotify. Chama-se “Uber Time”.

 

[CP]: O que é que ambiciona para o futuro?

[LM]: Neste momento, estou focado na minha tour internacional. Este ano, já tenho doze concertos marcados em Portugal, com bandas filarmónicas diferentes. Vou de cidade em cidade, com uma das bandas locais, e fazemos um concerto onde eu toco tudo do meu álbum novo que se chama “Raízes”. Vou também fazer o Festival do Dia de Portugal, em Montreal, no Canadá. Vou estar na Escócia, no Luxemburgo, na Suíça… Espero que consiga ir aos Estados Unidos e Brasil também. Era o meu sonho.

 

[CP]: Sempre que vem a Portugal surgem memórias?

[LM]: Claro que sim. Fica sempre um bocado de nós aí. A cultura em si, a nossa língua. Ir a Lisboa. Ir a Coimbra. Ver a avó. Ver a mãe. Não há nada que pague isso. Eu trocava tudo para estar em casa.

 

[CP]: A origem do trompete diz-nos que, numa fase inicial, este era utilizado para fins mágicos e para afastar energias menos boas. Foi também este o efeito que esse instrumento teve na sua vida?

[LM]: Também. O trompete tem muita magia quando o tocamos. Tirando os tambores e as flautas, é o instrumento mais antigo que existe. Portanto, sem dúvida que tem muita importância. Espero que, através de mim, se consiga trazer o nome do trompete, em Portugal, um bocadinho mais para fora da caixa.


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