16 de Setembro de 2021 | Coimbra
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LUCINDA FERREIRA

Como eu te amei…

9 de Agosto 2019

Não se pode ensinar nada a um homem; só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si.” – Galileu Galilei

Fazer ou apegar-se a algo, porque se gosta muito, é sempre algo ligado ao ego.

Amar qualquer situação, pessoa, trabalho ou o que quer que seja, é porque se pensa em primeiro lugar no outro, antes da nossa satisfação pessoal.

Foi isso que aconteceu na vida da maioria de todos nós, numa época em que havia trabalho sério e válido, para quem queria trabalhar.

Gostava de ser médica, mas aos 10 anos, quase ia pisando a massa encefálica de um menino que eu amava muito. Foi morto num acidente.

Mudou toda a minha vida, embora mais tarde, ainda insistisse e me inscrevesse em Medicina. Abandonei em seguida, pelo que me doía tudo aquilo.

Dediquei-me à Pedagogia e a muitos outros campos de interesses diversos, privilegiando, depois da Pedagogia, a Psicologia, a Comunicação e as Artes!

Como ninguém ensina nada a ninguém, mas desperta no outro o desejo de aprender, o segredo da motivação é a relação mútua do mestre com o discípulo.

Conhecimento. Metodologias, ampliadas pela vocação e o amor pelo outro, desembocam sem dúvida alguma, na Pedagogia do Sucesso.

– Ó professora quer que a ajude a levar o material? – dizia o Zézé que todos os dias espreitava as novidades que eu preparava com paixão, e me vinha esperar ao portão.

  • Ó professora, já viu a minha camisola nova? Veja este emblema, dizia me um menino muito bem nascido, mas que carecia de amor e atenção, pois os pais eram muito ocupados , por cargos muito absorventes.

…E logo dentro do livro de ponto, mal chegava à aula, lá estava um bilhetinho de amor com coisas tão simples, como esta:

-”Hoje fiz o trabalho de casa, embora tivesse levado uma chapada do meu pai, por estar a ler, e isso ser uma perda de tempo, disse o meu pai”. Mas eu não quero que a minha amiga professora fique triste, porque gosto dela.(…)”.

E quando passados 40 anos, estou no estacionamento do Shopping e um Senhor elegante e simpático se dirige para mim e me ajuda com gentileza, acrescentando, enquanto sorria feliz:

– Já não se lembra de mim?

– Tenho uma ideia, sim.

– Ainda ontem, falei da minha professora de Francês, mostrando ao meu filho, um livro que me ofereceu com uma dedicatória que lembro sempre, incentivando-me. Dando-me coragem para hoje ser quem sou!

– Olha que bom, Pedro!

– E num Natal, passados tantos anos, recebi um postal da delicada e frágil Dora que me dizia: “Todo o amor semeado, cedo ou tarde florescerá”.

Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a” – Johann Goethe.

E muitas outras recordações que guardo como relíquias.

Tanta lembrança, como um tesouro, mas o que mais me toca, são as confidências dos jovens mais velhos, e o brilho do olhar dos jovens, como o Cruz, sempre que escrevia um poema e eu lhe dizia:

– Olha, que lindo! Foste tu sozinho que inventaste?

– Sim, professora!- respondia com segurança e satisfeito.

E brilhavam os seus olhos, como estrelas cintilantes, pois o que sempre ouvia:

– “És um burro”, “Não serves para nada”. “Não hás-de ir longe”.

Ninguém se dera ao cuidado de descobrir o seu dom. A sua sensibilidade. A sua arte.

Não sabe o mal que faz , quem causa esses traumas.

Memórias arquivadas no inconsciente como uma ferida aberta a sangrar toda a vida, os estragos que nas almas desses indefesos jovens, a ignorância de progenitores (sem culpa, porque também sofreram o mesmo, muitas vezes) ou professores desencantados com a sua arte e revoltados, o mal que causam para toda a vida, nesses seres humanos que caminham cheios de complexos, em assumirem o grande valor que cada um de nós carrega no seu ser mais recôndito.

E todos temos um dom, ou mais dons, lembre-se sempre disso!

Hoje, as saudades daqueles com quem me cruzei, povoarão sempre meus sonhos até ao fim!

Eu vivia com naturalidade a Pedagogia do Sucesso, pois nunca negava elogios merecidos.

Não perdia a oportunidade para incentivar.

Entusiasmar.

Destacar.

Observar, com o amor e atenção, os méritos de cada estudante, com um rio de capacidades adormecidas, sem eles saberem, dentro de si.

Esse é sempre o processo eterno de aprendizagem.

Ainda hoje, o que mais alegra e para o que tenho mais jeito, é despertar no outro, o seu poder e capacidades. Saber como é lindo. Válido. Inteligente. Dotado. Tudo…

E como essa força irrompia.

Crescia.

Se manifestava e multiplicava, quando era valorizada!

Lembra-o, com satisfação e êxito, quem viveu esse processo.

Aprender a ter confiança em si mesmo.

Saber que é amado e valorizado no seu empenho, estimulava o interesse.

O esforço consentido, que produzia milagres, sobretudo numa criança mal amada. De aluno sofrível tornava-se brilhante!

Isso tem que ser comemorado a vida inteira por quem o vivenciou, e por quem assistiu a esse desabrochar tão compensador.

E se algum cansaço me quebrou, pois a profissão é exigente. Desgastante em muitos sentidos, o amor que senti, ao dar e receber, foi de longe compensador!

Que o digam todos aqueles jovens a quem dediquei o melhor da minha vida…

Trabalhar com adultos (formação de professores, docente na Faculdade de Letras), foi uma experiência diferente muito enriquecedora, que me trouxe outros sabores, dentro de novos contextos…


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