18 de Julho de 2024 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Coisas do Entrudo

1 de Março 2019

O Entrudo anda à solta. Andam os lugarejos desassossegados e vigilantes do interesse matreiro dos forasteiros que podem vir sabe-se lá de onde. A algazarra carnavalesca invade as ruas num entrudo singular onde as máscaras são de cortiça ou de madeira, onde os sacos de serapilheira e as roupas velhas são o melhor disfarce. Os berros excomungados desse entrudo brincalhão ecoam pelas ruelas que depressa se alvoraçam numa desarrumação pegada. Os vasos vão das varandas até ao fontanário da aldeia, os portões são autênticos sinos até que lhes cortem o badalo, as alfaias saem dos barracões decorando as ruas como que se um cortejo se preparasse. As portas abrem-se sorrateiramente, impedindo a entrada de qualquer intruso que queira meter as mãos ao fumeiro. Testos e panelas, chocalhos e funis tudo serve para fazer barulho até ao “enterro do morto”, onde aquele espantalho feito à pressa, mas a preceito, é protagonista de uma condenação hipócrita, é como quem queima o inverno para dar as boas vindas a mais uma primavera. Tudo grita, tudo chora, naquele choro embrulhando em risos de alegria e de folia ao ver aquele basculho de palha no meio das chamas. Era assim o entrudo até ao seu enterro na véspera da quarta de cinzas.

As particularidades do Carnaval português são ainda visíveis em alguns meios rurais, nessas aldeias onde a moderna vivência do Carnaval ainda não abafou o entrudo genuíno. Não há nenhum lugar que mereça o título de possuir o “Carnaval mais português de Portugal”, pois cada localidade que ainda preserva e vive estes dias dando continuidade a uma tradição secular, conjuga-se a esta expressão coletiva que se faz com o enterro do pai velho em Lindoso, com a folia dos caretos de Podence ou de Vale de Ílhavo, com o entrudo sátiro de Lazarim, o entrudo serrano em Góis, entre outros lugares que representam de certa forma esta genuinidade carnavalesca possuindo cada um as suas característica.

O Brasil invadiu Portugal nesta quadra em que ninguém leva a mal, transformando-lhe e roubando-lhe certos usos que nesta altura se vivenciavam. Felizmente nestas localidades e outras que jamais se referem, o entrudo ainda se preserva bem português à moda do povo. A sátira popular entre vizinhos e aldeias, entre política e vícios, é a inspiração da matreirice da mocidade rural, metendo os mais velhos também o seu bedelho, nem que seja a correr atrás do entrudo nos mais diversos cenários ou de bengala ao alto para acalmarem a brincadeira.


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