1 de Dezembro de 2021 | Coimbra
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Alqueva fez nascer um novo Alentejo

13 de Março 2020

O Alentejo está a mudar. Muito. Se cá voltassem muitos dos que nele verteram o seu suor até meados no século passado não o reconheceriam hoje, tão diferente ele está. A planície dourada doutros tempos é hoje um manto verde, numa mudança silenciosa onde as searas deram lugar a milhares e milhares de hectares que deram novo rosto à planície que alimentava o olhar regalado dos grandes agrários de antigamente. Era então, o Alentejo, o celeiro de Portugal, de cujo trigo vinha o pão que alimentava um país pouco abastado, nas Beiras e a norte entretido a plantar couves chungosas no intervalo dos pedregulhos. Era então, também, o Alentejo, o destino sazonal de uma camada vasta da população empobrecida que, oito a 10 meses por ano deixava a norte do Vouga as suas courelas ingratas e em ranchos de centenas e milhares de pessoas, demandava esse Alentejo imenso que da Moita para baixo se espraiava até descortinar, muitos quilómetros lá longe, os montes da serra de Monchique.

Esse Alentejo de então já não existe. O Alqueva transformou-o. O Governo de Guterres foi o culpado, ao dar corpo e vida a um projeto que durante mais de 20 anos alimentou expectativas e a esperança dos alentejanos, para quem a água era na altura uma promessa falhada da natureza. Mas esse Alqueva, feita a maior albufeira de toda a Europa, alterou tudo. Matou a sede a um solo sequioso de séculos; humedeceu atmosferas que, de tão ressequidas, até gargantas arranhavam.

Primeiro as vinhas depois o olival

Vieram as vinhas, primeiro. Muitas. Imensas. Adegas, quase tantas. Recuperam-se montes, agora espaços de conforto, bem estar e riqueza anunciada. Vieram as máquinas que substituíram os braços, as enxadas e a indispensável foicinha que anos e anos faziam quilómetros intermináveis aos ombros dos e das ceifeiras que, de sol a sol, andavam de rabo virado ao alto, ceifando filas intermináveis daquela seara que cansava o olhar de tão longe lhe procurar o fim.

E vieram – está a chegar ainda uma boa parte de muitos mais – os olivais. A perder de vista. A planície dourada de antanho é hoje um manto verde de cansar a vista. Só nos últimos 15 anos o Alentejo acrescentou mais 50 mil hectares de olival novo. Água, quanta se queira e por enquanto, num total de regadio que daqui a dois anos andará à volta de 170/180 hectares. Água trazida de quilómetros, alimento que de conluio feito com adubos orgânicos (que de ecológicos pouco terão), imprimem à oliveira uma tal força de crescimento que a fazem adulta ainda ela jovenzinha não deixou de ser. Dois/três anos, ei-la que produz frutos lindos, grandes e chamativos. Que dão, as mais vistosas e a isso destinadas, para alindar mesas mundo fora, atenuando apetites enquanto a comida não chega. Façam as contas e vejam quanto custa cada azeitona, as mais das vezes devolvidas mas bem pagas as não aproveitadas como se coisa barata fossem e que à mesa voltarão em tempo oportuno. Uma mina de fazer dinheiro. Uma bagatela paga a preço de oiro. Alentejo produz, o mundo come, uma parte paga. É assim em tudo.

Portugal é o sétimo produtor mundial de azeite e o quarto exportador, a render para a economia nacional à volta de 500 milhões de euros por ano. Deste total de cerca de 100 mil toneladas/ano de azeite, 70 por cento são produzidas no Alentejo, surgindo o Brasil, Angola, Espanha e Itália como principais países compradores.

Tanto olival não dará cabo do solo?

Mas nem tudo são rosas e nem tudo são saudades do Alentejo de outros tempos. Os grandes investidores no olival alentejano – mais de 300 milhões investidos nos últimos anos – não serão as entidades mais sensíveis na proteção do solo e na sustentação da sua capacidade produtiva. Muitos desses investidores são fundos internacionais, entidades muitas vezes sem rosto ou de difícil acesso, e a sua preocupação maior – dizem os ambientalistas e os que vivem o Alentejo por dentro – é produzir muito, cada vez mais. Produção intensiva e superintensiva, colocando em cada hectare muitas vezes o dobro das plantas recomendadas. Tal objetivo nem sempre se compatibiliza com as técnicas recomendadas na plantação e no acompanhamento da planta, recorrendo a adubação excessiva, utilizando químicos em excesso que se receia possam prejudicar a capacidade produtiva e qualitativa do solo alentejano.

Para já, olham-se as vantagens desta mudança que as últimas dezenas de anos trouxeram a este Alentejo, sobretudo o Alentejo Central, a girar a partir do epicentro de Évora e dali irradiando para um espaço de raio alargado. Que vantagens, para além do eventual ganho para os investidores? Que ganha o Alentejo com isto? pergunta-se. Para já mais emprego e fixação de pessoas. Também mais riqueza e dinheiro em circulação que o trabalho permite. E mais gente, sobretudo jovens, a regressar ao Alentejo donde haviam partido – eles ou seus pais – e que agora lhes acena com mais hipóteses de uma vida tranquila, não limitada às migas feitas de pão rijo, com sabor enriquecido pelos aromas dos coentros que, sendo tempero e sendo símbolo alentejano, ficam bem em tudo, apesar de pouco acrescentarem.


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