13 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

A primeira biblioteca do Cardeal

25 de Outubro 2019

Não é sempre que se ouve um testemunho com este peso: “a minha primeira biblioteca foi a minha avó”. Quando no passado dia 5 a comunicação social fez eco da elevação a cardeal de Tolentino Mendonça, recordei tais palavras que, dias antes ao ser entrevistado, tinha ouvido da sua boca. Não me cabem aqui considerandos sobre valores ou crenças que porventura possam induzir a práticas relacionadas com assuntos místicos, mas tão só agarrar o tal testemunho que dele nos fica e pelo eco que deixou.

Não foi em vão que Léopold Senghor clamou pelo velho que via morrer, sabendo que era mais uma biblioteca que ardia. Não é em vão que os anciãos da minha terra ainda hoje contam como semearam a floresta, como tantas vezes enganaram o estômago, como foram tirados da escola para tocar o boi de roda do engenho, para ajudar a criar os irmãos ou para ir morar para as casas dos mais ricos.

Não foi em vão que, no passado, Carlos de Oliveira e Idalécio Cação tudo fizeram para imortalizar a Gândara, tal como os que hoje ainda continuam a evocar vidas e memórias, quando contam e cantam tristezas e alegrias, quando romanceiam ou narram fomes, canseiras e trabalhos.

Não era por acaso que perante as maleitas que dizimavam as populações, muitos santinhos apareceram cheios de mistérios, lado a lado com as alminhas do outro Mundo que procuravam a redenção. E também não foi por acaso que Moisés Espírito Santo recolheu aquele manancial de dados junto dos mais idosos das nossas aldeias, procurando saber das suas crenças e rituais, e da sua influência na vida das comunidades, um trabalho obrigatório de consulta, que viria a ser publicado com a designação “A religião popular portuguesa”.

Tudo isto de facto nos remete para as figuras gradas dos nossos avós, encaminhando-nos no sentido mais genuíno e autêntico do conhecimento e da ancestral sabedoria. E neste cruzar de vozes cito de novo, e mais amplamente, Tolentino Mendonça quando diz: “a minha primeira biblioteca foi a minha avó. Era analfabeta mas era uma representante da cultura oral, mantinha essa memória. Por isso, para mim, o amor pelas estórias e pelos livros é sempre o amor pela voz humana. (…)”. Quão grande está a ser o percurso deste homem da cultura, iniciado ao colo da sua avó, um percurso agora firmado naquela que é uma das nossas mais ricas bibliotecas do Mundo!

Que o seu pensamento seja tomado como guia e ao mesmo tempo como alerta perante o que é necessário fazer para evitar que outras bibliotecas ardam, ao seguirem o curso normal da vida, sem que fiquem arquivados os testemunhos dos que, pelo peso da idade, nos vão deixando. E felicidades, Senhor Cardeal!


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