9 de Outubro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

O Professor Troncho de Melo

9 de Outubro 2026

(Prosa e Verso)

 

O professor Troncho de Melo foi um digníssimo professor do Ensino Primário Oficial. Ao longo da carreira foi criando amizades entre os muitos professores da sua classe em diversos concelhos, onde exerceu a profissão. No Distrito e concelho de Coimbra era conhecido e estimado por uma camada larga destes docentes. O seu espírito aberto, comunicativo, aliado ao bom profissional que era, gracejava a admiração de muitos.

Era um bom contador de histórias, pessoais e profissionais. Era meu amigo. Gostava de o acompanhar ao antigo e desaparecido Café Arcádia, onde as suas tertúlias eram prezadas por muitos.

Recordo também as noitadas que fiz com ele em casa do seu amigo José Dias Coimbra, na Praia do Pedrógão, jogando um jogo designado por King. Altas horas, todos se dirigiam à padaria local, para comprar pão quente que depois era bem besuntado com manteiga. Findo o repasto, ainda havia vontade para a designada «volta ao pinhal». No caminho, discutiam-se, as políticas da altura, com fervor inaudito.

Acompanhei-o, também, muitas vezes, às ceias mensais em casa do Conde de Foz de Arouce. Apesar da diferença de idades, era com uma luzinha nos olhos que lhe fazia companhia para os sítios para onde ele me convidava.

Sempre pronto a ajudar-me perante a mínima dificuldade. Adorava a sua única filha. Era um homem bom.

Para o final da vida, debateu-se com um cancro que lhe atacou toda a parte óssea. Tinha dores enormes que o deixaram bastante prostrado e sem vontade de viver.

Foi este homem galardoado por diversas entidades pelos serviços prestados.

Esta é uma parte insignificante da sua biografia carregada de atitudes nobres.

Este Senhor era meu sogro. Morreu, prematuramente, aos setenta e um anos e foi acompanhado ao seu refúgio final por milhares de pessoas.

´

Despedi-me dele na casa de banho, já morto.

Dei com ele já frio/gélido,

No chão estendido, sozinho,

Na cara o sofrimento estampado.

A qualquer coisa teria deitado a mão em desespero,

Em vão, caiu para sempre.

Vi o meu sogro e amigo,

Com os olhos tristes parados.

A morte presenteou – o,

Com uma tarde soalheira,

A lembrar, a sua vida afável.

Tombou, tombou como uma árvore,

Que o raio fulmina.

Quando entro no jazigo de família,

Há duas pequenas urnas onde detenho o olhar.

A do meu neto Hugo e a do meu sogro Troncho.

Saudades grandes.


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