26 de Maio de 2022 | Coimbra
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Os ratinhos da Beira

13 de Março 2020

Por António Vinhal

Há menos de quinze dias que completara os catorze anos de idade. Franzina, de saúde frágil, era a primeira vez que partia para a saga dos trabalhos no Alentejo. Ia com a irmã, mais velha um pouco mais de dois anos e tudo lhe parecia irreal, assustador, medonho.

Como seria isso das ceifas no Alentejo, tão longe e tão temido?

No quente mês de julho, o manajeiro convencera o pai a deixar partir a menina. “Que ia bem acompanhada, seria um grupo de sessenta pessoas, todos se conheciam um pouco melhor ou um pouco pior, ia com a irmã e todos tomariam conta da menina para que nada corresse mal”, garantia o manajeiro, pessoa com reputação de disciplinador, um pouco rígido até. Antes assim que as más famas agarram-se às pessoas e nunca mais as largam.

Na segunda semana do mês, os assalariados entregariam a mala com bens pessoais, cobertas de trapos para a cama e um ou dois lençóis, um púcaro para cozinhar, um prato fundo e uma colher, algumas mudas de roupa pessoal, não muita coisa porque eram sessenta cabeças e tudo deveria caber num carro de bois para o transporte até à estação do comboio. A mãe comprara uma pequena mala de cartão na feira da Brega. Na Brega e naquele tempo, só havia malas de cartão, fosse para ir para o Alentejo ou ir para a França. A mãe comprara também na feira da Brega um açafate, de vime, pois claro, que a menina portaria à cabeça para as roupas mais íntimas e alguns objetos de uso pessoal. Em casa, numa velha máquina de costura, a mãe aproveitou as costas de uma camisa velha do pai para lhe preparar duas cuecas, para usar só quando o período viesse, se viesse entretanto, o que não acontecera por enquanto. Também iriam acomodadas no açafate.

No dia aprazado, levantou-se às três da madrugada, ao chamamento do pai. A irmã, que dormia na mesma cama, também se levantou, meio atarantada, os olhos remelados e o cabelo desgrenhado, à luz da candeia de petróleo.

As coisas para levar estavam todas sistematizadas no pequeno açafate, faltava só lavar a cara com um pouco de água do cântaro, passar um pente pelo cabelo, vestir uma saia rodada até meio da canela, por cima dum saiote de linho cru, como era de uso, calçar umas tamancas de madeira protegidas por uma rodada de sola para durarem mais, beber uma malga de cevada quente que a mãe já preparava ao lume na cafeteira de barro preto de Molelos, com um pouco de broa de milho migado e um pouco, poucochinho de açúcar, que era um bem muito precioso e racionado na época.

Era ainda escuro quando saíram de casa para se encontrarem com os demais do rancho que o manajeiro haveria de guiar até à Herdade.

Fizeram a pé os dezassete quilómetros que os separava da estação do comboio em Oliveira de Frades. Aí apanharam o comboio até Aveiro. Mudaram de comboio e apanharam agora o que seguia para Lisboa. De Santa Apolónia seguiram a pé, o açafate na cabeça, os olhos arregalados para a cidade que jamais imaginaram como seria, até apanhar o barco para a outra banda. Lembra-se que teve medo do baloiçar contínuo de uma barca que parecia não querer segurar-se ao cimo da água. Felizmente foi por pouco tempo, porque da outra banda já outro comboio os esperava para os levar até ao destino.

Tudo era novidade, tudo era diferente e no cair da tarde daquele dia, olhando através da janela do comboio, tudo a correr para trás, a correr para trás como se fugisse de qualquer coisa invisível, mas que se sentia no aperto do coração de menina, duas lágrimas caíram silenciosas e amargas. As saudades começavam aí! Também aí acontecia o corte com a infância e a menina que fora e já não era mais. Agora era mais um dos ratinhos que vinham das beiras para trabalhar no Alentejo, lado a lado com os adultos.

Caía a tarde quando o comboio parou algures nas profundezas do Alentejo. Mas restavam ainda três horas a pé para chegar a um grande barracão onde iria sediar-se o rancho. Os homens ficavam num dos extremos do barracão; no outro extremo ficavam as mulheres. No meio, três fileiras para as malas de cartão e um espaço mais arranjadinho para o manajeiro e a família.

Durante todo o dia não conseguiu comer nada, apesar da insistência da irmã. Mas não haveria nada que lhe pudesse passar na garganta angustiada, intrigada e ansiosa. Como tudo era novo, tão diferente, tão inimaginável!!!

Quando cada um tomou o seu lugar, a irmã voltou a insistir para que comesse alguma coisa, mas não conseguiu.

Tinha um contrato de nove meses, que lhe dava a ganhar 600$00. Uma fortuna, pensava com os seus botões. Com esse dinheiro a família poderia – quem sabe? – melhorar um pouco a pobre situação económica, e os irmãos que ficaram nas beiras certamente poderiam ir frequentar a escola, coisa que ela não tinha podido fazer. Aos preços de hoje, iria ganhar 0,33€ por mês, trinta e três cêntimos do euro, sete dias de trabalho por semana, do nascer ao pôr-do-sol. E teriam três dias de descanso ao longo desses nove meses de trabalho: no dia de Todos os Santos; quinta feira de manhã e sexta feira de tarde da Semana Santa e o dia de Páscoa. Para a alimentação diária ser-lhe-iam fornecidos, por mês, 2 litros de feijão frade, 2 litros de grão de bico; 2 litros de azeite, 5 quilos de farinha de milho e 2 quilos de farinha de trigo. E era tudo quanto! Tomariam duas refeições por dia: ao meio dia solar, com uma hora de descanso e a segunda refeição no final do dia.

As refeições consistiam basicamente na açorda com folhas de saramago ou de grizanda, alternada ou com migas de farinha ou feijão frade, tudo regado com uma colher de sopa de azeite.

Estava tudo a postos para dar início à odisseia de uma vida.

Tanto quanto o calor do ‘suão escaldante’, o pior era mesmo a ceifa do arroz nos campos de Coruche. De estatura baixa e muito débil, agarrava com a mão esquerda a grossa paveia do colmo do arroz, enquanto a foucinha da direita a ‘serrava’ num esforço quase sobre-humano. A água entrava em lufadas pela gola do pescoço e das mangas, escorria corpo abaixo rente à pele e saía pelas pernas abaixo, quando se alçava para o ataque seguinte. Uma vez, duas vezes, mil vezes durante cada dia. E a torreira do sol abrasava o seu corpo frágil, fazendo-o transpirar em bica. E pior, pior eram aquelas malvadas das sanguessugas que se agarravam ao corpo, sedentas de sangue, chupando obstinadas nos vasos sanguíneos. De vez em quando precisava pedir ajuda da irmã para catar as malvadas que se agarravam ‘como sanguessugas obstinadas’.

À mesma hora, no mesmo dia, e sob o mesmo “sol ofegante, em chamas claras, no suão escaldante sobre as piorneiras emaranhadas, da manhã rubriloura, opressa de calor”, um Homem alevantou-se na colina da pequena montanha que ladeia o lago de Tiberíades, e clamou ao vento que passava: “Bem aventurados os que choram, porque serão consolados; bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus”.

Na aldeia distante, à mesma hora, a todas as horas e todos os dias que durou o cativeiro de babilónia, uma mãe acendia a vela comprada com o último óbolo da dor eterna, duas lágrimas correndo num rosto que jamais se enxugou e rezava de coração constrito: ‘Tende piedade Senhor, tende piedade de nós e trazei-nos de volta, sãs e salvas, as minhas filhas tão amadas’.

E, já me estava a esquecer, a menina não chegou a usar as cuecas que a mãe lhe preparara nas vésperas da partida com o pano velho das costas de uma camisa do pai, porque as costuras não aguentaram e a menarca também não veio, sabe-se lá porquê.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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