28 de Outubro de 2021 | Coimbra
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1960-1969: Liberdade, direitos sociais e educação preocupam a sociedade

21 de Setembro 2018

Em anos marcados pela censura, debate-se, em Portugal e no estrangeiro, a liberdade de imprensa, assim como se analisa a questão da democracia. A defesa e a proteção jurídica e social dos menores, a fome e o analfabetismo são também preocupações que marcam a década de 60. Esta é uma época marcante para Coimbra, que continua na senda do progresso, mas também para “O Despertar”, que comemora as suas Bodas de Prata e chora várias perdas.

Coimbra continua na senda do progresso e, paulatinamente, a cidade vai-se dotando dos meios e infraestruturas necessários à qualidade de vida da população, afirmando-a como uma das principais cidades do reino. É no ano de 1960 que a estação dos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT) chega a Celas e, já no ano seguinte, em abril, “O Despertar” anuncia que, muito em breve, Coimbra vai passar a ter “uma lista telefónica profissional”, como sucedia já com Lisboa e Porto, e que “englobará os distritos de Coimbra, Aveiro, Viseu, Leiria, Guarda, Castelo Branco, Santarém e Portalegre”. Dois anos depois, abre também uma estação dos CTT em Cernache, numa altura em que é ainda notícia a inauguração da luz elétrica nos lugares de Dianteiro, Serra da Rocha, Cova do Ouro e Carapinheira da Serra.

A viagem de comerciantes de Coimbra às feiras internacionais de Hannover e Milão, uma “iniciativa cheia de oportunidades”, merece também especial destaque, logo nos primeiros dias do ano de 1961. Nessa altura, quando as edições apresentam ainda a informação de que foram “revistas pela censura”, debate-se o problema da liberdade de imprensa, no estrangeiro e em Portugal; fala-se do que se entende por democracia; e alerta-se para a necessidade de analisar a defesa e a proteção jurídica e social dos menores – “um dos maiores e mais delicados problemas a resolver de uma forma quanto possível perfeita e completa”.

A crise na lavoura, provocada pelas cheias do Mondego, é debatida na cidade, tendo o ministro das Obras Públicas visitado os campos do Mondego, em março daquele ano. Meses mais tarde, em junho, apela-se à proibição do tiro aos pombos com “argumentos de culinária” e, na mesma altura, época de santos populares, dá-se especial destaque às tradicionais fogueiras coimbrãs. Também nesse mês o diretor de “O Despertar” recebe um convite especial dos Transportes Aéreos Portugueses para visitar o Brasil.

A nível internacional, aborda-se a questão do Ultramar português, nomeadamente a descentralização administrativa e a descentralização legislativa e, no final do ano, Coimbra manifesta-se contra o crime de Goa. Já em 1962 são também notícia os projetos históricos de reorganização da Europa.

Instituto Maternal Bissaya Barreto abre em Coimbra

Por cá, naquele ano, reivindica-se a conclusão do Porto da Figueira da Foz que poderá resolver o problema das lavouras na Bacia do Mondego; alerta-se para o estado da imagem da Rainha Santa e apela-se a melhoramentos. São também divulgados os números de passageiros que circularam, em 1961, nos Serviços Municipais de Transportes Urbanos de Coimbra – respetivamente 13.650.909; dá-se conta das dificuldades que atravessa o Olivais Futebol Clube, coletividade que, em março, está em festa, homenageando a sua equipa infantil, vencedora do campeonato nacional, feito que conseguiu sem sofrer qualquer derrota em todo o campeonato.

O turismo cresce na cidade e, no início de 1963, há questões que se levantam, como os acessos ao Convento de Santa Clara e o estado da capela de Santo António dos Olivais. É também por esta altura (em abril) que se noticia a inauguração das instalações do Instituto Maternal Bissaya Barreto, assunto que volta às nossas páginas numa das edições seguintes, onde se dá conta da vasta obra de Bissaya Barreto, figura cujo trabalho foi, por várias vezes, enaltecido e elogiado n’ “O Despertar”.

A defesa do Choupal fez-se, por diversas vezes e em diferentes tempos, nas páginas deste jornal. Alertou-se para a importância desta “catedral do silêncio” e muito se escreveu apelando à sua defesa e melhoramento.

Os “500 milhões de famintos” e “700 milhões de analfabetos” em todo o mundo eram, no início de 1963, motivo de grande preocupação, assim como o grande número de mortes de peões no país, onde Portugal registava um “trágico recorde”.

Nesta fase, “O Despertar” dá destaque a muitas questões mundiais, como a paz, o direito internacional e os direitos do homem.

Coimbra congratula-se com o “moderno bairro residencial” que nasceu nas proximidades da Avenida Fernão de Magalhães e merece também destaque uma visita de Coimbra a Penela.

Em 1964 dá-se conta dos 36 anos de governo de António Salazar, um ano depois informa-se que João Couto, proprietário da Torre de Anto, doou aquela propriedade à autarquia de Coimbra, que a irá transformar em Casa Museu António Nobre. Em 1966 alerta-se para a falta, em Coimbra, de distrações que prendam os turistas; em 1967 – ano das Bodas de Ouro de “O Despertar” – é com tristeza que se noticia o incêndio no Colégio dos Órfãos, que deixou “Coimbra mais pobre” e que representa um “duro golpe no património artístico de Coimbra”, tendo desaparecido “para sempre algumas preciosidades”.

Ainda nesse ano, em abril, anuncia-se a criação de um movimento de solidariedade com vista à construção do Pavilhão do Olivais FC. No mesmo mês são inaugurados a sede própria do Clube Automóvel do Centro e o Pavilhão Gimnodesportivo no Estádio Universitário de Coimbra, esta presidida pelo ministro da Educação.

Papa Paulo VI visita Fátima

Em maio o país está em festa com a vinda a Fátima do Papa Paulo VI, onde pediu paz para toda a humanidade.

A inauguração da fábrica da Leirosa, da Celulose Billerud, primeira instituição do país a produzir celulose solúvel, é notícia em junho; enquanto em julho Coimbra vibra com a vitória da Académica na Final da Taça de Portugal.

Em 1968 anuncia-se a vinda para Coimbra, “finalmente”, de um aeródromo; é inaugurado em março o “importante complexo” das Fábricas Triunfo e as novas instalações da MOACIR; em abril destaca-se a importância da Feira Popular; e em setembro é notícia a doença de Oliveira Salazar.

Em fevereiro de 1969 noticia-se para breve os “táxis aéreos”; em abril, mês da morte do General Eisenhower (antigo presidente da América do Norte), o Presidente da República Américo Tomás inaugura as instalações da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências de Coimbra; e em maio é inaugurado, no Loreto, o Centro Dr. Oliveira Salazar, instituto para crianças cegas e amblíopes, uma obra do professor Bissaya Barreto.

E é com inaugurações e progresso que a década de 60 chega ao fim. Esta foi, sem dúvida, uma década marcante na vida de “O Despertar”, de festa por um lado – com as celebrações dos seus 50 anos -, e de luto por outro, já que, nestes escassos anos, perdeu muitos dos seus “pilares”, homens de bem que se dedicaram de alma e coração a este projeto editoral.

O Despertar” chora perda de grandes homens

A década de 1960 foi uma década feliz para “O Despertar” – que comemorou as suas Bodas de Ouro – mas foram também anos tristes, marcadas por muitas e irreparáveis perdas.

Estes foram, assim, também tempos de luta e de dor. A 31 de março de 1962, o jornal lamenta o desaparecimento de José Henriques, antigo proprietário da empresa.

A 10 de fevereiro de 1968 “O Despertar” está novamente de luto, com a morte, no Porto, do “assíduo e brilhante” colaborador Adolfo de Freitas, aos 67 anos. “É mais uma lacuna que as nossas colunas vão sentir pelo desaparecimento de tão assíduo companheiro de trabalho”, lê-se naquela edição, onde se sublinha ainda a sua paixão pela nossa terra.

No mesmo ano, a 16 de março, “O Despertar” dá conta do agravamento do estado de saúde de António de Sousa e, dias depois, a 20 de março, é com grande pesar, que se noticia a sua morte. “A República perdeu um idealista puro; Coimbra um filho amantíssimo; O Despertar um grande timoneiro e a Família um chefe respeitado e respeitador. Tombou para sempre um homem!”- lê-se na primeira página, inteiramente dedicada a esta figura que marcou, indubitavelmente, o percurso e a história do jornal.

A cidade de Coimbra acabou por ter conhecimento desta perda pelo Diário de Coimbra, onde se lia que “com a morte de António de Sousa, desaparece mais um vulto que teve Coimbra sempre no coração, tendo lutado pelo seu engrandecimento com absoluta independência servindo-a lealmente como intemerato defensor dos seus interesses, na mesma medida em que soube manter íntegro o seu ideal republicano”.

O seu desaparecimento foi lamentado por todos e foram muitas as mensagens de condolências que chegaram ao jornal e que foram publicadas nas várias edições seguintes, em sua homenagem.

O jornal parecia “condenado” a perder grandes homens e, apenas três meses depois, a 1 de junho, “veste-se” novamente de negro, ao noticiar a morte do diretor Sílvio Pélico. “Morreu o nosso Director! Morreu um Homem Bom! Professor, Historiador, Cientista, Advogado, Jornalista, o Dr. Sílvio Pélico deixou vago um lugar na Sociedade, fazendo falta a Coimbra e ao próprio País”, lê-se na primeira página, onde é dado grande destaque ao seu lamentável desaparecimento.

Ainda nesse mesmo ano, mais uma “baixa” a lamentar. A 6 de novembro noticia-se a morte de Nicolau da Fonseca, “querido Amigo e dedicado colaborador”.

“Tínhamos por Nicolau da Fonseca o maior respeito e amizade, que sabiamos ser retribuída”, lê-se na primeira página, onde se dá ainda conta de que, “enquanto pode, esteve sempre na linha dos primeiros colaboradores a responder à chamada, vivendo o ‘O Despertar’ com intensidade”.

Família Sousa cada vez mais presente

Estas “perdas”, tão sentidas, surgem num período em que a presença da família Sousa aparece em grande força n’ “O Despertar”. A partir de 1963 a coluna “O Preto no Branco”, da autoria de António Ameida e Sousa, começa a aparecer com frequência. No mesmo ano, na edição de 23 de novembro, o irmão, Armando de Almeida e Sousa, surge como editor, e a 1 de julho de 1964 António Ameida e Sousa assume o cargo de diretor ajunto.

Com a morte de António de Sousa, o seu nome desapareceu do cabeçalho do jornal e, a 3 de abril, aparece pela primeira vez “Proprietários – António de Sousa, Herdeiros”.

A morte de Sílvio Pélico deixa vago o cargo de diretor e António Almeida e Sousa passa a diretor interino, Armando de Almeida e Sousa é o editor e surge Artur Almeida e Sousa como redator. Estão os três irmãos no “comando” deste projeto que tanto apaixonou o seu pai, prosseguindo assim a sua “viagem” e honrando a sua memória.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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