6 de Abril de 2020 | Coimbra
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1920-1929: Progresso numa cidade em construção

21 de Setembro 2018

O anúncio de novos projetos e empreendimentos assinalam o desejado progresso de Coimbra. A década de 20 fica marcada pelo avanço de muitas obras nesta cidade. Passo a passo, Coimbra brilha com o avanço da iluminiação elétrica, congratula-se com a abertura do café A Brasileira e do “luxuoso” Café Santa Cruz, festeja o anúncio da construção da Escola de Santa Cruz, estuda possibilidades para o novo Mercado e sonha com a vinda do ensino da agronomia.

Apesar das dificuldades económicas e sociais que se vivem em todo o país, Coimbra regista, na década de 20, crescimento e progresso. Algumas obras emblemáticas dão um novo impulso à cidade e tornam-na mais atrativa tanto para população como para visitantes.

O Café Santa Cruz, cujo início das obras são anunciadas, para breve, nos finais de janeiro de 1920, é um desses exemplos. O “luxuoso café” foi inaugurado três anos depois, a 8 de maio de 1923, na Praça 8 de Maio (onde, aliás, se mantém até a atualidade).

Antes dessa grande inauguração, abriu o café “A Brasileira”. A inauguração do “explêndido café”, instalado na Rua Ferreira Borges, merece especial destaque na edição de 22 de junho de 1921. “Sem dúvida, um dos melhores da província e na capital poucos se lhe avantajam”, escreve “O Despertar”.

Outra abertura marcante foi a do Hotel Astória, cuja “festa brilhante” foi noticiada com “pompa e circunstãncia” na edição de 31 de março de 1926.

A adjudicação do terreno da Avenida dos Bentos à Empresa dos Hóteis do Turismo para a cosntrução do Hotel de Coimbra (1921); o anúncio da construção do novo Mercado (1924) e da Escola de Santa Cruz (1925); a assinatura da escritura de arrendamento para a instalação em Coimbra de um “luxuoso hotel” no edifício recentemente construído na Avenida Navarro(1925); o arranque das obras na nova Estação (1926); a inauguração do Parque da Cidade (1927); a construção de um elevador para o planalto de Santa Clara (1927); a transformação do Palácio do Amial em Palácio da Justiça (1928); e a montagem, na Rua da Sofia, de “uma farmácia e drogaria” que terão como designação comercial Luciano & Matos são outros dos projetos anunciados nesta década, se bem que alguns não passaram disso mesmo, enquanto outros viram mesmo a “luz do dia”.

Os avanços e recuos do novo Mercado

Alguns destes projetos arrastaram-se por anos, senão mesmo décadas. O Mercado foi um dos que “muita tinta fez correr” nas páginas deste jornal. Primeiro várias vozes se levantaram a favor das necessárias obras, depois debateu-se a sua possível localização, tendo sido apontado o Terreiro da Erva como uma possibilidade e, logo de seguida, as dificuldades que essa localização acarretava. O assunto manteve-se na ordem do dia durante vários anos e, em 1928, em março, foi-lhe finalmente atribuída uma verba de dois mil contos para a sua construção.

Apesar de alguns “avanços e recuos” em alguns projetos, a verdade é que a cidade crescia. Em 1920 noticiava-se que chegavam à Câmara diversos requerimentos a pedir a construção de prédios no Bairro do Penedo da Saudade, “alguns dos quais devem ser elegantes, segundo a respectiva planta”; e avançava-se com a possibilidade de “um novo bairro de Celas”. Um ano mais tarde era notícia a possível construção da estrada para o Alto de Santa Clara e o alargamento da rede elétrica (foi mesmo feito um empréstimo de “1:500 contos destinados à iluminação eléctrica da cidade e prolongamento da rede de tração); elogiava-se o desenvolvimento notável de que tem sido alvo o Bairro Alto da cidade, também conhecido como “bairro-latino”; defende-se a vinda para Coimbra de um curso superior de agronomia, defendendo assim o potencial da agricultura; e debate-se a escolha de um local para a instalação do sanatório de assistência aos tuberculosos de Coimbra.

Turismo cresce

Tudo isto contribuia para o progresso de uma cidade que, como se lia em 1929, se afirmava a nível turístico e era, cada vez mais, “um centro de interessantes excursões”.

No mesmo ano, falava-se também da necessidade de transformar as “vielas” da Baixa em avenidas e noticiava-se a “grande afluência de forasteiros” à cidade. Este desejo de transformar a Baixa já tinha merecido grande destaque em 1921, num texto onde João Perdigão dava conta do “progresso e entusiasmo dos conimbricenses” mas onde alertava também para “as ruas feias, insalubres e tortuosas” da Baixa, considerando que era “indispensável arraza-la para depois cortar com largase elegantes avenidas”. Considerava na época que, “com o desenvolvimento extraorinário que entre nós está tendo o comercio e a industria é preciso abrir novas e largas avenidas”.

Monumento aos Mortos

A construção de um monumento de homenagem aos mortos da Grande Guerra é outro dos temas que vai envolver a comunidade, arrastando-se por vários anos. Em março de 1921, noticia-se que a Câmara vai abrir “uma subscrição publica para levantar um monumento, nesta cidade, aos mortos da grande guerra”. Em abril volta a falar-se na importância desta homenagem e o tema vai manter-se na primeira página durante várias edições, assim como sucedeu com o Mercado. Em setembro é criada uma comissão e começam a realizar-se vários eventos com o intuito de angariar fundos para a criação do tal monumento. As receitas angariadas em cada festa são também tornadas públicas. Em julho de 1928 informa-se que, ao contrário do inicialmente previsto, o monumento aos mortos será erigido na Avenida Sá da Bandeira e não na Praça da República.

Apoio aos carenciados

Apesar do anunciado progresso, Coimbra continua a deparar-se com dificuldades, a nível económico e social. No início de 1921 continua a ser notícia a escassez de açúcar e a dificuldade em obtê-lo na cidade e dá-se conta da “relação dos pobres contemplados com a esmola de um escudo, distribuida no dia de Natal pela Junta de Almedina (Sé Velha)”. Analisam-se as vantagens que podem advir da tração mecânica para a lavoura; temem-se os perigos que representa “um cortelho de suinos”, próximo de Celas, para a saúde pública; critica-se o facto do Largo da Igreja dos Olivais estar transformado em “campo de jogo de foot-ball”, o que “molesta as pessoas e danifica os arcos à entrada da igreja”.

Na região, felicita-se a criação de um “museu d’ arte” no Lorvão (1921) e, enquanto Coimbra está às escuras por falta de carvão, a inauguração da luz elétrica na Lousã (1923). Coimbra dá novo passo rumo à luz elétrica. “Até que enfim raiou a almejada luz electrica nalgumas ruas da cidade”, lê-se na edição de 12 de dezembro daquele ano, dando-se conta que “embora a título de experiência, a luz apareceu e com ela a esperança de se ter quebrado o enguiço que há muitos anos perseguia essa aspiração dos conimbricenses…”

É também nestes primeiros anos da década de 20 do século XX que começa a falar-se dos limites impostos à imprensa (2 de fevereiro de 1921). Anos mais tarde, na edição de 27 de fevereiro de 1924, dá-se conta dos comícios de protestos em Lisboa e Porto “contra o estabelecimento da ditadura em Portugal e contra a carestia da vida” e a 26 de junho de 1926 critica-se a censura. A 4 de abril de 1928 “O Despertar” informa que foi visado pela censura, informação que se vai tornar habitual nas suas páginas nos anos seguintes. Nesse mesmo ano, em junho e julho, em quatro edições dá-se especial destaque às medidas financeiras do “sr. Dr. Oliveira Salazar”.

Por cá são ainda notícia as “grandiosas festas da Rainha Santa”; o “deficit pavoroso” mensal dos elétricos, onde se metem os passageiros “como sardinhas em canastra!”; o abandono da Sé Velha, “histórico templo”; o processo para a classificação de monumento nacional a antiga igreja de S. João das Donas. Lamenta-se também a morte de Daniel de Matos, “esse fulgurante homem de sciencia cujo nome era respeitado em todo o mundo scientifico e que á nossa Universidade cedeu o melhor do seu talento durante todo o periodo da sua gloriosa vida académica!” (fevereiro de 1921); do fundador d’ “O Despertar”, João Henriques (abril de 1923); do escultor João Machado (dezembro de 1924); e do Presidente da República António José de Almeida, em Lisboa (novembro de 1929). Estas notícias foram acompanhas de fotografias, tão raras nessa altura.

Os banhos no Rio Mondego (“uma das principais distrações da gente da nossa terra”); a crise na Misericórdia de Coimbra, que atravessa “uma das mais graves e perigosas horas da sua secular existência”; o incêndio que destruiu por completo a estação telegrafo-postal, onde também funcionavam os serviços telefónicos, na Torre de Santa Cruz; as cheias na Baixa da cidade; e a construção de um campo de futebol dentro do Parque de Santa Cruz (muito criticado) foram também notícias de destaque.

A nível nacional e internacional, dá-se conta que se começa a organizar “o Seguro Social Obrigatório na Doença, essa bela obra humanitária (1921); critica-se o “elevado preço dos livros”; fala-se do “voto sem sexo”, que está a ser discutido no Senado Francês, onde foi rejeitado (1923); aborda-se a crise no trabalho e a emigração (1926).


  • Diretora: Zilda Monteiro

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