27 de Outubro de 2021 | Coimbra
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100 anos depois…

27 de Setembro 2018

2 de março de 1917:

Portugal entrara em março de 1916 na 1.ª grande guerra e um ano depois os ecos daquela desgraça mundial continuavam a chegar intensamente aos periódicos nacionais com as notícias tristes dos nossos soldados que nela tombavam. Nos jornais, quase se podia inalar o cheiro acre da pólvora dos canhões e do sangue derramado por essa Europa fora.

Na Rússia, a revolução estava já em marcha em março de 1917, a nobreza czarista em grandes dificuldades, fazia as malas apressadamente e os bolcheviques culminavam em apoteose a sangrenta revolução pouco depois, em outubro, o que ia mudar aquele grande país, com as inevitáveis consequências que se verificaram na Europa e no mundo, durante o século XX.

Em março de 1917 ninguém sabia ainda onde era Fátima, pequeno e obscuro povoado do concelho de Ourém, onde, dois meses mais tarde, três humildes crianças que, com as suas ovelhas e cabras deambulavam por aquelas terras fartas de trevos e erva macia, foram surpreendidas com a visão de uma santa senhora afirmando que tinham falado com ela junto de uma azinheira que ainda hoje lá existe. A cidade de Fátima nasceu naquele local por milagre e é hoje uma das mais importantes capitais do mundo cristão.

O ano de 1917 revelava-se assim, logo de início, duro, complexo, místico e imprevisível.

A 2 de março de 1917 nascia na cidade de Coimbra o jornal “O Despertar”, um bissemanário, tendo como proprietário e administrador João Henriques e como diretor José Pires de Matos Miguéns. Uns anos mais tarde, por morte deste, já nos anos 30, António de Sousa assume a sua direção e com ele a presença da família Sousa neste periódico.

 Sentado à minha frente numa mesa do Nicola, depois de largar o nosso barbeiro Luís Carlos que nos tinha aparado o cabelo, Fausto de Sousa Correia insistia, sem me dar tréguas:

“Beli, agora que te estás a reformar, tens de pensar no cartune para “O Despertar”.

“Fausto, sabes que há 30 anos não pego no lápis, talvez não esteja à altura…”

“Insisto, não quero convidar outra pessoa, não arranjes desculpas e começa a treinar! Telefona quando estiveres pronto ou aparece no Trianon, em princípio venho sempre à sexta feira”. Não foi preciso ir mais longe, a amizade era assim; o Chico Melenas nascia ali assim, inseguro, incipiente, irreverente, de cabelo à Beatles como nós, paradigma da nossa geração.

Alguns dias depois enviou-me um simpático cartão de Bruxelas a agradecer o cartune nº 1 do Melenas, “um abraço, gostei muito”, dizia.

O nosso “O Despertar” é agora centenário e é com gosto que integro uma vasta lista de ilustres colaboradores e simpáticos funcionários, o que muito me honra. Como diz Lino Vinhal, seu atual proprietário: “Vamos lá tratar dos próximos 100 anos”.

Contem comigo e com o Chico Melenas, até sempre!

BELISÁRIO BORGES (Colaborador de “O Despertar”)


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