18 de Março de 2019 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos – cartas de amor, ainda existem?

8 de Março 2019

Solicitaram-me, há tempos, que escrevesse uma carta de amor para inserir numa Coletânea, sob o título Três Quartos de um Amor. Nesta altura, já está publicada pela Chiado Editora.

É facto não ser fácil redigir sobre um assunto, que diz muito a quase todos nós, sobre o qual já se escreveram linhas e linhas, em que o substancial está dito, pensado e sentido. Porventura, outros, dirão que não é bem assim, – pouco ou nada está escrito, é preciso escrever mais, sempre mais.

Na verdade existe a intimidade do amor enchendo o diário de muita gente, novos ou velhos, – amor vivido, real ou ficcional, mergulhado em sofrimento ou embebido numa exultação esfuziante.

Há também o amor imaginado sobre o qual se escreve em qualquer lugar, na praia, só, mirando o mar ou no autocarro, apinhado, a caminho do emprego.

Onde quer que se esteja, fecham-se os olhos… e, devagar, devagarinho, tentamos abstrair-nos de tudo o que nos cerca, e lá vem o amor vertendo do nosso imaginário. Depois, é necessário descrevê-lo. Para tal respire bem fundo, muito fundo, até às entranhas. Então, de olhos cerrados e pensando para dentro, descreva o real ou imagine uma cena de amor. Quem já não ficcionou sobre um amor esperado ou desejado!

Da minha parte, – olhem bem –, escrevo uma carta de amor a alguém que não conheço, ou conheço mas sobre ela não posso dizer tudo, ou nada, nem o nome. Mas é de amor. Tentei, como muitos outros tentaram, ficcionei como muitos outros ficcionaram, até o nome. Não fiques triste Maria!

Maria

Meu amor. Vou escrever-te mais uma carta. Como sabes, hoje já quase ninguém escreve cartas. O papel e a escrita à mão são considerados profanação. Impõe-se a escrita abreviada e impessoal do email ou a desmesurada mostra do Facebook. Através dos telemóveis enviam-se mensagens sensaboronas. Eu continuo a escrever assim, principalmente, para ti. Encontro no papel e na caneta, uma forma outra de envolvência com a expressão do pensamento, um processo criador de intimidades. E eu quero que seja assim, meu amor, ainda mais quando estamos longe, ou melhor, perto longe por que nos amamos.

Meu amor. Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, como diz Pablo Neruda no seu livro Cem Sonetos de Amor que, agora, ando a ler para me lembrar sempre de ti. E o melhor, de tudo, é que o nosso amor não oprime nem limita os nossos movimentos, não nos retira a liberdade individual. É por isso que estás longe, por opção, e o nosso amor não deixa de me correr nas veias. Como dizia o poeta, tudo me prende a ti a milhares de quilómetros de distância.

Meu amor. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. Que bonitas palavras, estas, de Joaquim Pessoa, que se acomodam tão bem a nós dois.

Meu amor. Como gostamos do mar e das ondas!… Já reparaste que somos um barco feito de espuma, a bambalear sobre elas, sempre que nos encontramos na nossa cama? E lá somos o mundo todo, o corpo do mundo. Rocha, montanha, casa, tudo. É por isso que tu embora distante estás aqui, e eu também estou aí. Sempre. Existimos distantes no mesmo.

Meu amor. Tu és tudo para mim e quase tudo o que penso e aprendi és tu. Eu aqui perto tu lá longe, de dentro de nós, sai o mundo, tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes

Meu amor. Vou terminar. Falta aqui dizer muita coisa, muitas palavras que não sei pronunciar nem escrever. Mas eu pergunto-me: serão necessárias mais palavras? Não. Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de certezas e nós somos a certeza do planeta.

Olha para a carta de amor de José Luís Peixoto que trazes sempre contigo, lê-a mais uma vez, e pensa em nós. Em nós dois.

Adeus, até já, até sempre, Meu amor.


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